Contracultura

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  • Publicado : 22 de abril de 2012
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A contracultura e as relações de poder na contemporaneidade





ARMANDO ALMEIDA[1]





Resumo


O objetivo desta reflexão é contribuir para a discussão do papel exercido pela contracultura na sociedade contemporânea. Parte-se de que em fins dos anos 60 toda uma revolução de costumes e valores, a ela associados, deslocapara o campo da política uma enormidade de temas que não habitavam os territórios institucionalizados das negociações sociais: a questão homossexual, feminina, negra, ambiental, étnica, etc. Para tanto, elege-se para dialogar com o assunto, prioritariamente, uma coletânea de textos de Foucault dedicada a inquirir sobre as relações de poder na contemporaneidade, especialmente voltada a dimensionar osmicropoderes na trama social. Inquirir sobre a “genealogia das relações de força” é aqui uma tentativa de compreensão da capacidade e amplitude que tiveram aqueles acontecimentos de produzir efeitos. Pois a questão em apreço cobra uma “análise ascendente do poder”, que parta das células mais elementares da sociedade, que vá além da classe social e valorize o cotidiano.Talvez não seja exagero dizer que não é possível se falar em relações de poder na contemporaneidade sem que, inevitavelmente, sejamos remetidos ao final dos anos sessenta (68/69). Há quase um consenso, mesmo entre aqueles que vêem com estranheza a idéia de pós-modernidade, de que ali, naqueles anos, algo aconteceu que fez mudar a “ocidentalidade”. Optei por tratar por contracultura aquele conjunto defatos sociais que vai reverberar intensamente mundo afora a partir de maio de 68 na França e do movimento hippie nos EUA. Ao longo deste artigo espera-se que discussões de algumas de suas características possam torná-la mais evidente. E de algum modo melhor esclarecer o que por ela se entende.

Particularmente em a Microfísica do poder[2], Michel Foucault (2006) faz reflexões que meprovocam intensamente. Pela grande afinidade que têm com o tema que intento desenvolver na tese de doutorado: uma investigação acerca do significado da contracultura sobre as relações de poder na contemporaneidade, com foco na chamada “reafricanização” recente da Bahia. Razão porque nesta obra aqui me concentrei. Tentarei um diálogo com o conjunto do que está ali contido. Com a idéia central dacoletânea, que arrisco sintetizar da seguinte forma: fazer uma reflexão sobre os mecanismos de funcionamento do poder, especialmente sobre a operacionalização dos micropoderes na trama social.

Vai ficando cada vez mais evidente, ao longo dos anos, que trazer novas temáticas para o território da política foi a grande contribuição da contracultura. Que, ao que tudo indica, sutilmentemudaram a maneira de fazer política, ou ao menos lhe ampliaram o leque e redefiniram papéis sociais na contemporaneidade. Não por acaso, Foucault reconhece em maio de 68 um marco que lhe tornou possível ir além, em suas inquietações filosóficas sobre penalidades, prisões e disciplinas, sobretudo pela “significação política” que questões como estas adquiriram desde então (FOUCAULT, 2006, p. 3). Ainclusão do cotidiano na arena política é responsável, segundo ele, por um novo momento no estudo da “mecânica do poder”, precisamente por permitir analisar as “malhas mais finas da rede” social de poder[3].

Antes de seguir adiante, cabe fazer uma observação, por permitir não apenas o esclarecimento da noção que aqui se tem de contracultura, mas principalmente por melhor exemplificara natureza do poder em questão. Destaque-se que, o que aqui se identifica como grandes ligas das inquietações contraculturais são precisamente questões típicas do campo da cultura, obviamente, enquanto conjunto de valores e costumes, como parecia querer significá-la aqueles que lhe batizaram. O que se trouxe à baila, sem dúvida, não faz parte do tradicional território das lutas políticas. O que...
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