A ceia secreta

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 217 (54220 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 29 de maio de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
I

Exórdio

Na Idade Média e no Renascimento, a Europa ainda conservava intacta sua capacidade de entender símbolos e ícones ancestrais. As pessoas sa-biam quando e como interpretar um capitel, uma expressão num qua-dro ou um prodígio na estrada, apesar de só a minoria ter aprendido a ler e a escrever.
Com a chegada do racionalismo se perdeu aquela capacidade de in-terpretação e, com ela,boa parte da riqueza legada por nossos antepas-sados.
Este livro acolhe muitos desses símbolos da forma como foram con-cebidos. Mas também pretende devolver nossa capacidade de compreen-dê-los e nos beneficiarmos de sua infinita sabedoria.

N
ão me lembro de adivinhação mais obscura e perigosa do que aquela que me acometeu naquele Ano — novo de 1497, enquanto os Estados pontifícios observavamcomo o ducado de Ludovico, o Mouro, estre-mecia de dor.
O mundo era então um lugar hostil, furta-cor, um inferno de areias movediças em que quinze séculos de cultura e fé ameaçavam ruir sob a avalancha de novas idéias importadas do Oriente. Da noite para o dia a Grécia de Platão, o Egito de Cleópatra ou as extravagâncias da China exploradas por Marco Polo mereciam mais louvores do que nossapró-pria história bíblica.
Aqueles foram dias agitados para a cristandade. Tínhamos um papa simoníaco - um diabo espanhol coroado sob o nome de Alexandre VI que comprara descaradamente a tiara no último conclave -, príncipes subjugados pela beleza do paganismo e a maré de turcos armados até os dentes à espera de uma boa oportunidade para invadir o Mediterrâneo ocidental e converter todo mundo aoislamismo. Bem se poderia dizer que nossa fé jamais estivera tão indefesa em seus quase mil e quinhentos anos de história.
E ali se encontrava este servo de Deus que vos escreve - examinando com cuidado um século de mudanças, uma época em que o mundo alar-gava diariamente suas fronteiras e exigia de nós um esforço de adapta-ção sem precedentes. Era como se a cada dia a Terra se fizesse maior,forçando-nos a uma atualização permanente dos conhecimentos geo-gráficos. Nós, clérigos, já intuíamos que deveríamos tomar providências para pregar a um mundo povoado por milhões de almas que jamais ou-viram falar de Cristo, e os mais céticos previam um período de caos imi-nente, provocado pela chegada de nova horda de pagãos.




Apesar de tudo, foram anos excitantes. Anos que contemplo com certasaudade em minha velhice, neste exílio que me devora pouco a pouco a saúde e as recordações. Minhas mãos já quase não reagem, a vista fraqueja, o ofuscante Sol do sul do Egito turva minha mente e só nas horas que precedem a primeira luz da manhã sou capaz de organizar meus pensamentos e refletir sobre a espécie de destino que me trouxe até aqui. Um destino a que nem Platão, nem Alexandre VI, nem ospa-gãos são alheios.
Mas não apressarei os acontecimentos.
Basta dizer que agora, enfim, estou sozinho. Não sobrou nenhum dos secretários que tive um dia, e hoje apenas Abdul, um jovem que não fala minha língua e acredita que sou um santarrão excêntrico que veio morrer em sua terra, atende às minhas necessidades mais elementares. Vivo mal, isolado nesta antiga tumba escavada na rocha, rodeado porpoeira e areia, ameaçado por escorpiões e quase sem movimento nas duas pernas. Todos os dias o fiel Abdul deixa neste cubículo um paste-lão ázimo e o que por sorte sobra em sua casa. É como o corvo que durante sessenta anos carregou no bico trinta gramas de pão a Paulo, o Eremita, que morreu com mais de cem anos nestas mesmas terras. À diferença daquele pássaro de bom agouro, Abdul sorri quando meen-trega o pão, sem saber mais o que fazer. É suficiente. Para alguém que pecou tanto como eu, qualquer deferência se converte em prêmio inesperado do Criador.
Mas além da solidão, também a mágoa terminou por corroer minha alma. Causa-me pena que Abdul não saiba o motivo que me trouxe à sua aldeia. Não saberia explicar a ele por sinais. Tampouco nunca po-derá ler estas linhas e, ainda no...
tracking img