A busca de facilidade

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
Jorge Amado

Sumário
Apresentação, por Antonio Olinto Uma palavra, por Jorge Amado O Gato malhado e a andorinha Sinhá Glossário Sobre o autor

Apresentação
Um caso de amor Era uma vez um gato malhado. Ninguém gostava dele. Achavam-no malvado e egoísta. Certa manhã, acordou feliz, contente de existir, sentiu-se o dono do mundo e olhou ao redor para ver omedo que iria causar a todos: o Pato Preto nadou rápido para o outro lado do lago, as galinhas escondiam seus pintinhos em qualquer lugar que não fossem vistos. E o Gato Malhado feliz com o pavor que despertava em todos. Eis senão quando vê a Andorinha Sinhá toda alegre. Por que estaria alegre? O gato quis saber por que ela não fugira. A Andorinha Sinhá riu e disse: — Não tenho medo de ti. Tu nãosabes voar e, além disto, és tolo e feio. Foi um deus-nos-acuda. Como? Chamá-lo de feio? O mais belo animal da floresta! O Vento e a Manhã, o Papagaio, a Vaca Mocha, o Pato Branco, o Pombo e a Pomba, a Coruja, todos os habitantes da Floresta acompanharam o caso de amor impossível, igual a muitos que acontecem no mundo às vezes incompreensível dos meninos e das meninas, a que somente o amor dáforça e significado às coisas, nesta bela história inventada e escrita por Jorge Amado, o escritor que levou o nome do Brasil a todos os cantos do mundo.

Antonio Olinto "O mundo só vai prestar Para nele se viver No dia em que a gente vir Um gato maltês casar Com uma alegre andorinha Saindo os dois a voar O noivo e sua noivinha Dom Gato e dona Andorinha." (Trova e filosofia de Estêvão da Escuna,poeta popular estabelecido no Mercado das Sete Portas, na Bahia.)

Uma palavra
A história de amor do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá eu a escrevi em 1948, em Paris, onde então residia com minha mulher e meu filho João Jorge, quando este completou um ano de idade, presente de aniversário, para que um dia ele a lesse. Colocado junto aos pertences da criança, o texto se perdeu e somente em 1976,João, bulindo em velhos guardados, o reencontrou, dele tomando finalmente conhecimento. Nunca pensei em publicá-lo. Mas tendo sido dado a ler a Carybé por João Jorge, o mestre baiano, por gosto e amizade, sobre as páginas datilografadas desenhou as mais belas ilustrações, tão belas que todos as desejam admirar. Diante do quê, não tive mais condições para recusar-me à publicação por tantos reclamada:se o texto não paga a pena, em troca não tem preço que possa pagar as aquarelas de Carybé. O texto é editado como o escrevi em Paris, há quase trinta anos. Se fosse bulir nele, teria de reestruturá-lo por completo, fazendo-o perder sua única qualidade: a de ter sido escrito simplesmente pelo prazer de escrevê-lo, sem nenhuma obrigação de público e de editor.

Londres, agosto de 1976 J.A. Erauma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundas do passado, quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com lingüiça, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas. Hoje, meninos e meninas já nascem sabendo tudo, aprendem no ventre materno, onde se fazem psicanalisar para escolher cada qual o complexo preferido, a angústia, a solidão, a violência.Aconteceu naquele então uma história de amor.

Madrugada A manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso, funcionária relapsa. Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir sem despertador, dormir até não ter mais sono! Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã não mais acordará antes das onze, e olhe lá. Cortinasnas janelas para evitar a luz violenta, café servido na cama. Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários. Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a Noite acende com medo do escuro. A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas. Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direção ao...
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