Uso do jornal como fonte historica

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do jornal como fonte hosO JORNAL COMO FONTE PRIVILEGIADA DE PESQUISA HISTÓRICA NO
CAMPO EDUCACIONAL
Maria Juraci Maia Cavalcante
Faced/UFC
À medida que o historiador do século XX se aproxima do presente, fica cada
vez mais dependente de dois tipos de fonte: a imprensa diária ou periódica e os
relatórios econômicos e outras pesquisas, compilações estatísticas e outras
publicações degovernos nacionais e instituições internacionais (...)
Nenhuma história das mudanças sociais e econômicas ocorridas neste século
poderia ser escrita sem essas duas fontes (Eric Hobsbawn - 1995).

Em 1983, quando eu era aluna do Programa de Mestrado em Sociologia da
Universidade Federal do Ceará, fui iniciada na pesquisa histórica pelo historiador americano
Ralph Della Cava. Sob a orientação dofamoso especialista do Milagre do Juazeiro(1976), fui
levada à Hemeroteca da Biblioteca Pública Estadual Meneses Pimentel, em Fortaleza, para
levantar dados sobre a história da Igreja Católica no Ceará, nas primeiras décadas do século
XX. Não poderia ter sido melhor a minha iniciação, o que me leva a partir dela para
sistematizar o presente artigo, com a intenção de oferecer algumas pistasmetodológicas sobre
o uso de jornais como fonte de pesquisa para historiadores da educação.
Desde o início, ficou claro para mim que o jornal possibilitava uma espécie de retorno
ao passado, que poderia ser caracterizado pela nítida sensação de estar a vivê-lo. O próprio ato
de folhear um jornal de época me parecia ter o efeito de criar um vínculo testemunhal ou
vivencial com os acontecimentos alinarrados. O amarelecido das folhas e o bolor empoeirado
nelas inscritos pelo tempo como que deixava pouco a pouco de incomodar e eram substituídos
pela surpreendente impressão de ver renascer pessoas e acontecimentos, em princípio, tão
apartados de uma leitora egressa do futuro.
Figuras que seriam hoje totalmente estranhas, outras mais familiares porque viraram
nomes de rua, praça e escola, emFortaleza, erguiam-se vigorosas a protagonizar ou ser
referidas no jogo da política e das idéias: Barão de Studart, Senador Pompeu, Idelfonso
Albano, Nogueira Acioly, Guilherme Rocha, Clóvis Bevilaqua, Justiniano de Serpa, Rodolfo
Teófilo, Filgueiras Lima, Pinto Madeira... Era infinita a galeria de nomes que eu via saltar da
condição necrológica de alvo de homenagens insípidas - porqueignoradas e distantes da
maioria da população em seu significado histórico - para a atuação viva da elite a construir a
sociabilidade política e intelectual de uma composição mosaica de tempo, que veio depois a
se constituir naquele todo compacto, que designamos "passado".

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Nunca mais iriam bastar-me os modelos de explicação sociológica, presos a estruturas
de um presente indefinido ou de umpressuposto de dinâmica social cristalizado na fórmula de
uma certa história geral da humanidade. Em especial, o jornal me era mostrado como fonte
capaz de reconstrução cotidiana do passado. Dia-a-dia, ano a ano, década a década, o século
que conheceu a expansão tecnológica da imprensa poderia ser revisto por qualquer pensador
interessado em conhecer o presente através de um evolver pleno desinais de continuidade e
descontinuidade, que tão bem caracterizam o movimento da história, a marcar o que
permanece e o que se esvai. Nisto residiu a primeira grande lição metodológica recebida,
ponto de partida de minha inclinação sempre crescente de buscar entender o presente sob as
luzes e trevas dos acontecimentos idos, a qual fortaleci depois sob a inspiração das lições de
Braudel:Vivemos no tempo curto, o tempo de nossa própria vida , o tempo dos jornais, do
rádio, dos acontecimentos, como na companhia dos homens importantes que
mandam no jogo, ou pensam mandar. É o tempo, no dia-a-dia, de nossa vida que se
precipita, se apressa, como que para se consumir depressa e de uma vez por todas, à
medida que envelhecemos. Na verdade, é apenas a superfície do tempo presente, as...
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