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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564

Psicol. USP v.9 n.2 São Paulo 1998

doi: 10.1590/S0103-65641998000200002

HUMILHAÇÃO SOCIAL – UM PROBLEMA
POLÍTICO EM PSICOLOGIA

José Moura Gonçalves Filho
Instituto de Psicologia – USP

Este artigo opera com resultados de uma pesquisa de psicologia
social desenvolvida em regime participante e envolvendo mulheres
que na VilaJoanisa – SP assumiram comunitariamente o trabalho
de Centros de Juventude. Dedicamo-nos aqui ao exame de
um problema político e psicológico, a humilhação social, uma
modalidade de angústia disparada pelo impacto traumático da
desigualdade de classes: para assim caracterizá-lo, recorremos à
investigação marxista e à psicanálise.
Descritores: Classe trabalhadora. Privação social. Ansiedadesocial.
Psicologia social.

As companhias de Marx e de Freud: nem rivalidade, nem
equivalência

Marxismo e Psicanálise. O tema contou entre os mais enfrentados
por fertilíssimos pensadores que atravessaram e ultrapassaram
a Segunda Grande Guerra, em Frankfurt ou em Paris, exilados
na Inglaterra ou nos Estados Unidos. Quem desejasse retomar
as possibilidades e dificuldades do assunto, emseu detalhe
filosófico, certamente deveria recorrer àqueles escritores de grande
envergadura dialética e que interrogaram-se sobre Freud enquanto
liam O Capital ou interrogaram-se sobre Marx enquanto liam O mal-
estar na Cultura.

Que portanto o leitor não se engane quanto ao limite dos
parágrafos seguintes. Trata-se de um estudo de psicologia
social. Esforça-se apenas para indicar umproblema político – a
humilhação social – que, para ser ainda hoje discutido e superado,
não deveria dispensar as antigas companhias de Marx e de Freud.

Dentre as três palavras – /marxismo/ /e/ /psicanálise/ – talvez
a mais anódina entre elas, aparentemente insignificante, esta
partícula /e/ – uma conjunção aditiva – é que merecesse desde
já polarizar nossa atenção. Dizemos: marxismo epsicanálise.
Encontramo-nos, assim, não perante uma alternativa: marxismo
ou psicanálise. Tampouco deparamo-nos com associações
híbridas: "psicanálise marxista" ou "freudo-marxismo", expressões
que não hesitaram formular-se na Europa e na Argentina,
reivindicando uma espécie de pesquisa combinada nem sempre
bem sucedida.

No caso de marxismo ou psicanálise, supõe-se a concorrência

entre doisregimes de investigação como se tivéssemos que nos
decidir entre duas "visões de mundo" ou "cosmovisões". Foi sempre
esta a convicção entre determinados marxistas, como também
entre certos psicanalistas, toda vez que para uns e outros as
obras de Marx ou de Freud deixavam de valer pela especificidade
do fenômeno enfrentado – a formação do modo de produção
capitalista, no caso de Marx; aformação da sexualidade humana,
no caso de Freud – e passavam a contar como obras de ciência
geral, como sistemas completos e fechados: para cada sistema
o outro valendo como redutível à lógica absorvente do sistema
eleito. Já não se disse, entre marxistas, que a Psicanálise contaria
como "ideologia" ou como refinada e dangerosa expressão do
individualismo moderno? Já não ouvimos, entrepsicanalistas,
que os militantes empenhariam em sua adesão ao socialismo as
mesmas motivações de um neurótico qualquer, seu engajamento
público nunca superando as compulsões de um sintoma?

Para que as razões que nos levassem a adotar Marx se prestassem
ao mesmo tempo para a exclusão de Freud, para que as razões que
nos levassem a adotar Freud se prestassem ao mesmo tempo para
a exclusão de Marx,seria necessário que a obra de um ou outro
deixasse de contar como obra de pensamento e se impusesse como
trabalho morto (para falar como marxista) ou como objeto fálico
(para falar como psicanalista). Desnecessário insistir sobre este
ponto: se estivéssemos diante de Marx ou Freud como perante uma
alternativa excludente, perderíamos o sopro de ambos.

O caso de uma solução eclética –...
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