Rito de passagem

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  • Publicado : 21 de janeiro de 2013
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Os ritos e as passagens, encarnados e vividos pelos indivíduos ao longo de sua trajetória social, são um tema fundamental da reflexão antropológica. O assunto, a um só tempo emotivo e intelectual, é rico e cheio de sentido. Através dele podemos aprender um pouco mais sobre nós mesmos e sobre os outros; vislumbrar o sentido cultural profundo que permeia, e de certo modo governa, nossas aspirações,realizações e frustações, os atos rotineiros e extraordinários de nossas vidas.
O filme "Um homem chamado cavalo" - produzido em 1970 com excelente assessoria antropológica, dirigido por Elliot Silverstein e tendo no papel principal Richard Harris - servirá de fio condutor à nossa incursão. O filme conta a história de uma transformação que, curiosamente, começa e acaba no mesmo lugar, nafronteira entre duas civilizações. A civilização ocidental moderna, nele representada por um aristocrata ingles, e a civilização indígena do meio-oeste norte-americano, nele representada pelos Sioux. Porém, no intervalo de sua duração, assistimos a uma transformação decisiva: um lorde inglês entediado tornou-se um homem pleno.
Paradoxalmente porém, nosso principal personagem tornou-se um homem fora deseu próprio mundo. O começo do filme o leva, a ele e a nós, para dentro desse outro e estranho mundo. O final o deixa, a ele e a nós, a caminho do seu próprio mundo (agora talvez não mais simplesmente entediante, mas também estranho e portanto potencialmente interessante). O filme começa e acaba na fronteira, naquele território limite, naquele lugar indefinido onde não se está mais dentro de ummundo e ainda não se está dentro de outro. Tanto no começo quanto no final o personagem está prestes a deixar de ser o que era antes. Se é verdade que entre os Sioux ele tornou-se um homem, o filme nos deixa diante da inquietante pergunta: Permanecerá um homem, se conseguir voltar a seu próprio mundo?
Todo o tempo identidades são postas em cheque, em permanente construção, destruição etransformação. Especialmente interessante nele é a revelação das
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identidades individuais como uma elaboração coletiva em permanente processo de constituição. Para que eu seja um homem, é preciso que me reconheçam como tal. Mais interessante ainda, o filme nos diz isso claramente, numa bela lição antropológica: esse homem não é uma realização abstrata (como o da declaração dos direitos humanos universais) masuma realização muito concreta: ser humano depende de outros humanos, é impossível que John seja um homem entre os Sioux a não ser por meio das concepções sioux do que seja um homem.. Tornar-se humano é encarnar os valores de uma cultura. Esse é o drama que embasa o filme, e é aliás o drama vivido individualmente por cada um de nós de forma não necessariamente tão heróica e nem tão exótica.
Aequação porém é mais profunda. Não há na verdade dois termos = homem + cultura. O homem só é homem por meio da cultura. Ao mesmo tempo, e igualmente importante, essa instância de significados coletivos negociados e partilhados que chamamos cultura não é exterior ao homem. Essa teia de significados dentro da qual estamos imersos, e que se impõe de certo modo inexoravelmente a nós, é uma construçãohumana. O indivíduo é a um só tempo tecelão e usuário de sua roupagem social. O filme é especialmente feliz ao mostrar essa extraordinária relação: toda identidade é ao mesmo tempo atribuída e construída. Todo sentido para ser pleno precisa ser vivenciado intelectual e emocionalmente. Chegamos ao tema central da palestra.
Em 1909, um folclorista belga chamado Arnold van Gennep (1873-1957) escreveuum livro que logo se tornaria um clássico na tradição antropológica: Os ritos de Passagem. Ele produziu dialogando com um dos pais fundadores da sociologia, o francês Émile Durkheim, autor de As formas elementares da vida religiosa , outro livro chave, escrito em 1912.
Para Durkheim, os relatos etnográficos sobre formas primitivas/e ou antigas de civilização renovavam o conhecimento das...
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