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A civilização das formas: o corpo como valor*
por Mirian Goldenberg e Marcelo Silva Ramos - publicado em 17/01/2007
Antes de passar pelo menos duas horas
com o maquiador e o cabeleireiro,
nem eu pareço com a Cindy Crawford.
CINDY CRAWFORD
No início do romance Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello, o personagem Vitangelo Moscarda, um jovem de 28 anos, rico e ocioso, é surpreendido porsua mulher Dida olhando-se demoradamente no espelho. “O que você está fazendo?”, pergunta-lhe Dida. “Nada, estou olhando aqui, dentro do meu nariz, esta narina. Quando aperto sinto uma dorzinha.” A mulher, sorrindo, diz com certo sarcasmo: “Pensei que estivesse olhando para que lado ele cai.” “Cai? O meu nariz?”, retruca. “Claro, querido. Repare bem: ele cai para a direita”, responde Dida,placidamente. A partir daí, o protagonista que até então considerava seu nariz, se não propriamente belo, pelo menos “bastante decente” desconhecedor deste e de outros “leves defeitos” (sobrancelhas que parecem dois acentos circunflexos, orelhas mal grudadas, uma mais saliente que a outra...) enumerados, logo em seguida, por sua mulher, fixou-se na idéia de que não era para os outros aquilo que imaginavaser. Pensava, naquele momento, apenas no seu corpo, escolhido pelo autor como ponto de partida para as posteriores reflexões do personagem sobre o desajuste entre sua vida subjetiva e a imagem que os outros tinham dele. Após tomar consciência de que não era tal como se via, mas como os outros o viam, bem como não era o que pensava ser, mas o que dele pensavam os outros, Moscarda procura decompor asimagens que dele faziam, numa busca “existencialista” de si mesmo. No percurso, despoja-se de todos os seus bens e escolhe viver em um albergue de mendigos e loucos. A moral da história o próprio autor revela: “O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativonecessário.”1
Dessa forma, o romance do dramaturgo italiano, conhecido por seus personagens que lutam por uma existência livre de qualquer convenção, suscita questões caras à antropologia e à sociologia, dando destaque aos processos por meio dos quais os indivíduos, inseridos em situações interativas, desempenham seus papéis sociais e procuram agenciar as impressões que transmitem uns aosoutros. Uma perspectiva que, sem negligenciar os condicionamentos sociais, ajuda a refletir sobre o atual culto ao corpo na cultura brasileira, uma vez que os significados atribuídos pelos indivíduos à aparência e à forma física, no processo de revelação de suas identidades, parecem inflacionados, especialmente entre as camadas mais sofisticadas dos grandes centros urbanos. Nunca como hoje, a máximapirandelliana Assim é, se lhe parece esteve tão em voga.
Em um contexto social e histórico particularmente instável e mutante, no qual os meios tradicionais de produção de identidade a família, a religião, a política, o trabalho, entre outros se encontram enfraquecidos, é possível imaginar que muitos indivíduos ou grupos estejam se apropriando do corpo como um meio de expressão (ou representação) doeu.
A difundida ideologia do body building própria da chamada “cultura da malhação”, que se fundamenta na concepção de beleza e forma física como produtos de um trabalho do indivíduo sobre seu corpo, assim como outros movimentos importados dos EUA, que vêm ganhando cada vez mais adeptos em alguns segmentos da nossa sociedade, parecem se basear nesse tipo de apropriação. A body art e a bodymodification, que utilizam técnicas que vão da tatuagem, passando pelos piercings e podendo chegar a outras, mais extremas, como marcas a ferro quente (brandings), talhos com navalha e gravações com bisturi incandescente, servem como exemplos. Seus praticantes “trabalham” o corpo como suporte para sua arte e transformação, muitos deles com um projeto bem definido, como o de uma jovem paulista de 22...
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