Quando “bom dia” virou “eu te amo”: uma análise dos relacionamentos contemporâneos pela ótica da pós-modernidade.

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  • Publicado : 28 de outubro de 2012
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QUANDO “BOM DIA” VIROU “EU TE AMO”: UMA ANÁLISE DOS RELACIONAMENTOS CONTEMPORÂNEOS PELA ÓTICA DA
PÓS-MODERNIDADE.

Introdução

Muito tem-se falado a respeito da rapidez dos “novos tempos”, sobre o quanto “tudo tem passado rápido” e também muito se critica o modo como a expressão “eu te amo” vem sendo colocada hoje por algumas pessoas como quase um sinônimo de “bom dia”. Quem sabe aspessoas que criticam essas características dos tempos modernos ou tempos líquidos como diria Bauman (2007), nem ao menos percebem o quanto essas duas coisas estão intrinsecamente ligadas.
Para entender como se deu essa mudança nas relações afetivas, tem-se primeiramente que conceituar o momento em que essas constroem-se, chamado por vários teóricos também de pós-modernidade ou modernidadelíquida. Jameson (1985) o conceitua e da outros adjetivos ao destacar que:

Ele (o pós-modernismo) não é apenas mais um termo para a descrição de determinado estilo. É também, pelo menos no emprego que faço dele, um conceito de periodização cuja principal função é correlacionar a emergência de novos traços formais na vida cultural com a emergência de um novo tipo de vida social e de uma nova ordemeconômica – chamada, freqüente e eufemisticamente, modernização, sociedade pós-industrial ou sociedade de consumo, sociedade dos mídia ou do espetáculo, ou capitalismo multinacional (JAMESON, 1985, p.2).

A idéia de pós-modernidade se pauta na rapidez, no descarte rápido e fugaz, antes que o objeto, deixe de trazer aquela satisfação inicial. Baseia-se na rotatividade e não na manutenção dosprodutos (BAUMAM, 2003). Para ele, ao aplicar essa mesma dinâmica o chamado “homo consumens” evita as possíveis conseqüências indesejadas que um relacionamento mais prolongado pode trazer, assim como suas angustias, conforme destaca o autor ao enfatizar que: “aqueles que não precisam se agarrar aos bens por muito tempo, e de certo não por tempo suficiente para que o tédio se instale, são os bemsucedidos” (BAUMAM, 2003, p.32).
Ao contrário de outros tempos, onde o prazer estava na vontade consumir, hoje podemos pensar que na verdade o prazer do homem pós-moderno ao se relacionar, é o de descartar e recomeçar tudo do zero (Bauman, 2003), em um novo relacionamento, e uma nova paixão, como atenta Stacechen & Bento (2008) “Assim, os desejos alienados de consumo, uma vez satisfeitos, sãorapidamente substituídos por outros através do ritmo incessante do consumismo”. Além desse prazer de possuir sempre o novo, também existe a vantagem de nunca se “machucar”, já que como visto, não existe tempo de as raízes se firmarem tão profundamente, que quando arrancadas haja alguma resistência, alguma dor.
Qual então seria o relacionamento perfeito para esse “homo consumens”? Quem sabe um amor quepossa ser usado apenas quando existir a vontade, e sempre que ela aparecer, ele esteja lá. É assim que nasce a idéia de um “relacionamento de bolso” (Bauman, 2003 p.07) que seria aquele que pode ser utilizado quando for necessário e guardado logo em seguida, para apenas mais tarde ser novamente aproveitado. Tal amor apesar de suprir as necessidades, não aprisiona o sujeito, e deixa uma porta abertapara novos relacionamentos, desde o início. É a idéia de se começar um namoro, já pensando em como será melhor o próximo, e o quão melhor ainda será o posterior, em uma dinâmica interminável, mas sempre limpa, pura, livre de “refugos” (Bauman, 2003).
Mas aquele que vive nessa lógica de descarte rápido também tem nesse mesmo poder, sua maior preocupação, pois ele sabe que ele também pode serdescartado a qualquer momento. Essa característica o leva a uma contradição: ao mesmo tempo em que ele quer se ver livre para viver um novo relacionamento quando quiser, também não quer deixar de aproveitar o presente antes de seu prazer acabar, mais isso é algo que foge a seu controle, e causa uma angustia que pode aprisionar seu objeto de amor, e com isso acabar por decretar seu fim (Bauman, 2003)...
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