Peter brook

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  • Publicado : 15 de janeiro de 2013
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A porta aberta Peter Brook As artimanhas do tédio
Certo dia, numa universidade inglesa, quando dava as conferências que serviram de base para meu livro O teatro e seu espaço, eu me vi sobre o palco de um auditório, de frente para um enorme buraco negro, distinguindo vagamente lá no fundo do buraco umas pessoas sentadas na escuridão. Quando comecei a falar, senti que tudo o que dizia não tinha omenor sentido. Fui ficando cada vez mais deprimido, pois não conseguia achar um jeito natural de chegar até elas. Vi que elas estavam sentadas como alunos atentos, à espera de sábios conselhos para escreverem em seus cadernos; quanto a mim, havia sido escalado para o papel de mestre, investido da autoridade que cabe a quem fica quase dois metros acima do nível dos ouvintes. Felizmente, tive acoragem de parar e sugerir que fôssemos para outro lugar. Os organizadores saíram, procuraram por toda a universidade e finalmente acharam uma salinha que era estreita demais e muito desconfortável, mas onde foi possível estabelecermos uma relação natural e mais intensa. Falando nestas novas condições, percebi imediatamente que havia uma nova relação entre mim e os estudantes. Daí por diante, conseguifalar livremente e a platéia ficou igualmente livre. As perguntas, assim como as respostas, fluíram de modo muito mais fácil. A grande lição que recebi nesse dia, no tocante ao espaço, tornou-se a base das experiências que desenvolvemos muitos anos depois em Paris, em nosso Centro Internacional de Pesquisa Teatral. Para que alguma coisa relevante ocorra, é preciso criar um espaço vazio. O espaçovazio permite que surja um fenômeno novo, porque tudo que diz respeito ao conteúdo, significado, expressão, linguagem e música só pode existir se a experiência for nova e original. Mas nenhuma experiência nova e original é possível se não houver um espaço puro, virgem, pronto para recebê-la. Um diretor sul-africano extremamente dinâmico, que criou um movimento de Teatro Negro nos distritossegregados da África do Sul, disse-me: "Todos nós lemos O teatro e seu espaço, um livro que nos ajudou muito." Fiquei contente, embora muito surpreso, pois a maior parte do livro foi escrita antes de nossas experiências na África e referia-se aos teatros de Londres, de Paris, de Nova York... O que poderiam ter achado útil naquele texto? Por que sentiam que o livro também se destinava a eles? Qual arelação do livro com a proposta de fazer teatro nas condições de vida de Soweto? Fiz esta pergunta e ele respondeu: "A primeira frase!"
Posso escolher qualquer espaço vazio e considerá-lo um palco nu. Um homem atravessa este espaço vazio enquanto outro o observa, e isso é suficiente para criar uma ação cênica.

Eles estavam convictos de que fazer teatro nas condições de que dispunham seria um desastreinevitável, porque nos distritos segregados da África do Sul não existe nenhum "edifício teatral". Achavam que não conseguiriam ir adiante se não tivessem teatros de mil lugares, com panos de boca e bambolinas, equipamento de

luz e projetores coloridos como em Paris, Londres e Nova York. E de repente veio um livro cuja primeira frase afirmava que eles tinham tudo que era necessário para fazerteatro. No início dos anos setenta, começamos a fazer experiências fora dos edifícios considerados como "teatros". Nos primeiros três anos fizemos centenas de apresentações nas ruas, em cafés, em hospitais, nas antigas ruínas de Persépolis, em aldeias africanas, em garagens norte-americanas, em barracões, entre os bancos de concreto de parques municipais... Aprendemos muito, mas a experiênciamais importante para os atores foi a de representar para um público que eles podiam ver, ao contrário da platéia invisível a que escavam acostumados. Muitos haviam trabalhado em teatros grandes, convencionais, e para eles foi um tremendo choque estar na África em contato direto com o público, tendo como único recurso de iluminação o sol que, imparcial, unia espectadores e atores sob a mesma luz....
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