Perspectivas sociologicas, berger. cap. 3

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O problema de Deus em Jean-Paul Sartre
Rogério A. Bettoni
O filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) não escreveu apenas obras filosóficas, mas também ensaios, romances e peças de teatro. Em sua obra de caráter existencial, Sartre não deu uma importância excessiva ao problema religioso, pois não estava preocupado em discutir acerca da existência ou não existência de Deus. Antes disso, suafilosofia consiste em colocar o homem como responsável por todos os seus atos. Lançado num mundo sem justificativa, o indivíduo projeta-se no futuro, escolhe um sentido para sua vida, já que ela não possui um sentido a priori. Desta forma, o existencialismo de Sartre está inteiramente estruturado no fato de que a existência humana precede sua essência, e esta é construída através da liberdaderesponsável que o homem manifesta ao escolher sua própria vida. Nada, nem mesmo Deus, pode justificar o homem ou retirá-lo de sua liberdade total e absoluta, ou ainda salvá-lo de si mesmo. No presente texto, buscamos fazer uma análise de sua obra filosófica e literária à procura dos fatores que explicam e fundamentam o ateísmo sartreano.
O existencialismo de Sartre e a condição do homem no mundo
Em1946, alguns anos após a publicação de sua obra mais importante e de caráter puramente filosófico, O ser e o nada, Sartre profere uma conferência intitulada O existencialismo é um humanismo, na qual pretende defender seu pensamento de uma série de críticas e explicitar com mais clareza suas ideias. Nesta conferência, ao colocar o homem como pura subjetividade, Sartre demonstra que sua filosofiatira todos os subsídios de uma postura absolutamente ateia, o que consiste em considerar que a existência humana precede sua essência. Para tal, Sartre cita o exemplo de um objeto fabricado, mais precisamente um corta-papel.
Ao concebermos um corta-papel, devemos admitir que esse objeto foi fabricado por um artífice, que já possuía uma ideia prévia, um conceito do que seria este objeto, pois éimpossível imaginar a fabricação de algo sem saber exatamente para que irá servir. No caso do objeto, a sua produção precede sua existência, isto é, antes de o objeto ser fabricado, já possuíamos um conceito dele. Deste modo, quem crê em Deus, considera-o como um Artífice superior, no qual estaria implícito a noção do homem. De forma análoga, há alguns ateus que, como os do século XVIII, mesmonegando a existência de um Criador, admitem que o homem possui uma natureza humana, um conceito humano, que colocaria todos os homens numa mesma definição, pois são possuidores das mesmas características básicas. A essência, neste caso, continua a preceder a existência, e este é um princípio que podemos observar em quase toda a história da filosofia.
Sartre afirma o contrário. Dizer que a existênciaprecede a essência não é simplesmente suprimir Deus e negar a natureza humana em função da realidade humana. Dizer que a existência precede a essência é colocar o homem como um nada lançado no mundo, desprovido de uma definição. O homem surge no mundo e, "de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo" (Sartre, O Existencialismo é um Humanismo. SãoPaulo: Nova Cultural, 1987, p. 6.). Ora, isso implica também o fato de que o homem só se faz num constante projeto, num incessante lançar-se no futuro. Somente assim o homem irá se definir como ser existente e consciente de si mesmo.
O existencialismo impõe ao homem a inteira responsabilidade no exercício de suas ações. Ao escolher sua vida, o homem também escolhe todos os homens. O valor de suaescolha é determinado pelo fato de que ele não pode escolher o mal. Nas palavras de Sartre: "o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos" (idem, p. 7). A imagem que moldamos de nós deve servir, em última instância, para todos os homens. Nesse sentido, o homem não é só responsável por si, mas também pela humanidade inteira.
O existencialismo ateu de Sartre...
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