Os intelectuais e a politica lulista

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 7 (1575 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 26 de setembro de 2011
Ler documento completo
Amostra do texto
Os Intelectuais e a Política Lulista

RUDÁ RICCI

Faltando apenas três meses para o governo Lula completar seu primeiro ano, já é possível delinear com mais segurança sobre o perfil de sua gestão. Trata-se de uma gestão marcada pelo pragmatismo sindical. Lula, enfim, revela a cada dia a origem de sua cultura política.
O pragmatismo sindical brasileiro possui uma dupla característicahistórica. A primeira, forjada no pós-guerra e que entra em declínio com o golpe militar de 64, tinha como principal artífice o Partido Comunista Brasileiro. Muito já se interpretou do ideário do “Partidão”. Vale, para o tema em pauta, destacar algumas de suas características:

a) Superação dos resquícios feudais da política e economia brasileira. Esta proposição,
que muitos estudos demonstraram serequivocada, sustentou o arco de alianças políticas que envolvia o campesinato pobre, o operariado urbano e o empresariado progressista. A intenção era fortalecer um projeto nacional-desenvolvimentista, consolidando o mercado interno, as elites nacionais e disseminando as relações capitalistas em nossa sociedade. Nas palavras dos seus autores, tratava-se de desatar os nós das forças produtivascapitalistas;

b) Ação política etapista. O etapismo significava a mudança gradativa da correlação de forças políticas do país. Seria uma tradução livre da revolução burguesa nacional. O discurso era rarefeito, diluído em diversas pautas populares, chegando próximo do populismo;

c) Interlocução privilegiada com o Estado. A convicção política era que o Estado seria o
promotor das transformaçõesestruturais da sociedade. A ação e a pauta sindicais eram,
portanto, sempre nacionais e voltadas para influenciar a agenda estatal. Vários depoimentos
de lideranças sindicais da época revelam as manobras políticas marcadas por acordos e
inserção nas agências estatais.

A segunda herança histórica é a que se constituiu nos anos 80, no processo de liberalização
política do país. O discurso daslideranças sindicais autodenominadas “autênticas” diferenciava-se dos líderes do “Partidão” por sustentarem a necessária independência (ou autonomia) frente ao Estado e partidos políticos. Privilegiavam, ainda, a partir desta concepção de autonomia política, pautas diretamente relacionadas com o dia-a-dia da fábrica ou local de trabalho. A organização de base contrapunha-se à direção de cúpula quearquitetava, quase desgarrada das suas bases sindicais, uma ampla articulação de forças para influenciar a agenda estatal.

Contudo, o discurso das principais lideranças sindicais “autênticas”, tendo Lula à frente, não se diferenciava da geração passada em relação aos métodos de negociação e definição de alianças políticas. Ao longo da década de 80, Lula lapidou seu discurso, mas manteve semprea veia pragmática. Da famosa frase em que afirmava que não era político de esquerda, mas metalúrgico, na virada da década de 70, chegou à dura crítica aos marxistas do PT, afirmando, num encontro paulista do partido em 1986, que estes liam Marx do alto de postes de luz enquanto os trabalhadores caminhavam nas calçadas, logo abaixo. Lula construiu-se politicamente aliando seu pragmatismo sindicalcom uma agenda de mudança social que se aproximava de uma proposição cristã progressista (combate à pobreza, liberdade de expressão, apelo comunitarista, atenção à base social e, novamente, forte pragmatismo e imediatismo no atendimento às demandas mais imediatas dos segmentos desfiliados socialmente).

Este, obviamente, não foi o ideário forjado no interior do PT. O PT sofreu, ao menos em suaprimeira década, várias influências que, num sincretismo original, concebeu um vigoroso ideário político. Contribuíram para este ideário as correntes trotskistas que estiveram desde a primeira hora na sua fundação [1] , lideranças e teólogos da Teologia da Libertação, intelectuais que haviam rompido com a ortodoxia leninista-marxista e lideranças de movimentos sociais vinculados às comunidades...
tracking img