"Os espelhos" de machado de assis e guimarães rosa

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  • Publicado : 31 de março de 2012
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"Os espelhos" de Machado de Assis e Guimarães Rosa



Sheila Grecco (USP)

Machado de Assis e Guimarães Rosa são os autores que possuem maior fortuna crítica em nossa literatura. São, por assim dizer, os mais lidos e treslidos pela crítica universitária, que a eles prestou tributo com dissertações, teses, livros, simpósios1.

O escritor carioca já recebeu o severo julgamento de SilvioRomero, um dos expoentes da crítica naturalista no Brasil. Em um dos seu maiores equívocos literários, ele alegou faltar a representação das "cores locais" na obra machadiana e denunciou o seu suposto afastamento das questões político-sociais, em 1897. Astrojildo Pereira e Raymundo Faoro trilharam a leitura sociológica, mas foi com Roberto Schwarz que ela marcou espaço. Schwarz foi um dosprimeiros a demonstrar a relação dessa produção com os modos de ser da sociedade brasileira, observando a situação de dependência que nos rege, a partir da figura do agregado em Dom Casmurro e perscrutando a crítica, feita através da volubilidade narrativa que a muitos enganou, à sociedade escravagista, patriarcal e hipócrita do século 19.

Com uma obra relativamente pequena em comparação a um Machadode Assis, ou mesmo de um Mário de Andrade, Guimarães Rosa chamou para si todas as esferas de interpretação. Para compreendê-lo a crítica teve de reavaliar seus métodos, transitando por inúmeras escolas, do estruturalismo à fenomenologia, da psicanálise à filosofia, descartando, curiosamente, o emprego de fontes documentais de natureza histórica e/ou jornalística. Fatos literários eextra-literários foram tratados sem discriminação. Os depoimentos do autor tornaram-se balizas sobre o que descartar ao interpretá-lo: "embora eu veja o escritor como um homem que assume uma grande responsabilidade, creio entretanto que não deveria se ocupar de política"2 ou, então, como apregoa na introdução, mais fictícia mas lida como teoria literária, de Tutaméia: "A estória não quer ser história. A estória,em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota".

No entanto, resguardadas as diferenças, tanto em Machado quanto em Rosa há a preocupação de um projeto literário que faça uma leitura do Brasil. Os contos homônimos "O espelho", de Machado de Assis e de Guimarães Rosa podem ser analisados em contraste para visualizar como os dois autores maisestudados da literatura podem suscitar novas leituras e incitam à reflexão sobre os rumos do Brasil e da nossa suposta modernidade.

"O espelho (Esboço de uma teoria da alma humana)", de Machado de Assis, faz parte do volume Papéis Avulsos, livro publicado um ano após o grande marco da literatura brasileira ocorrido em 1981 com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aí Machado desnuda as falsas virtudes,os interesses escusos, a caridade ostensiva dos "mil nadas" que preenchiam – ou preenchem? – a sociedade do século XIX. Em suas Memórias, Brás Cubas faz um balanço geral de sua vida e morte resumindo exemplarmente o ceticismo e niilismo que marcaram sua – sua somente? – existência.

Os ingredientes machadianos, "pena da galhofa e tinta da melancolia", utilizados nas Memórias também se aplicamaos contos. "O espelho" sustenta-se sobre o paradoxo de que o exterior é interiorizado.

Já no início de seu relato, a expectativa da representatividade de um papel social é marcante: "Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! Tão contente! Chamava-me o seualferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura".3

A visita à tia Marcolina, viúva e solitária, num sítio distante, é desencadeadora do processo de auto-conhecimento. A tia pede que Jacobina leve o seu uniforme de alferes, não lhe chama mais por "Joãozinho", mas por "senhor alferes", hábito ao qual todos os vizinhos e escravos se educaram. Na mesa, tem lugar privilegiado e todas as...
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