Nota sobre marcel mauss e o ensaio sobre a dádiva

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 14: 173-194 JUN. 2000

NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA
Marcos Lanna
Universidade Federal do Paraná
RESUMO
Este artigo analisa a obra clássica de M. Mauss, Ensaio sobre a dádiva, à luz de desenvolvimentos recentes da Antropologia. Salienta como contribuição de Mauss o entendimento da dimensão política da troca de dádivas, assim como asugestão de sua universalidade, posteriormente demonstrada por Lévi-Strauss, constituir-se em princípio formal-abstrato, e não num fato empírico-concreto. A partir desse princípio, avalia a tese segundo a qual a dádiva é fundamento de toda sociabilidade e comunicação humanas, assim como sua presença e sua diferente institucionalização em várias sociedades analisadas por Mauss, capitalistas enãocapitalistas. PALAVRAS-CHAVE: Marcel Mauss; teoria da troca; reciprocidade; hierarquia.

I. SOBRE MARCEL MAUSS O Ensaio sobre a dádiva, obra fundamental de Marcel Mauss, é um marco no desenvolvimento da sociologia durkheimiana. Esse desenvolvimento é no sentido de uma Antropologia. Mauss avança, em relação a Durkheim, ao aprofundar uma postura crítica em relação à filosofia, adotando a etnografia,abrindo-se para as sociedades não-ocidentais e assumindo cada vez mais a comparação. Talvez por isso mesmo, a obra de Mauss se caracterize pela dispersão, como ele próprio reconhece1. Mauss interessava-se pelas manifestações dos fenômenos humanos em quaisquer tempo e espaço do planeta e sua obra aborda uma “variedade vertiginosa de temas”, para usar uma expressão de Gomes Jr. (1999). O Ensaio sobre adádiva reflete de modo evidente esses aspectos, presentes também em outros trabalhos de Mauss. Inicia-se com menções a questões de

língua norueguesa antiga e posteriormente aborda as mais variadas formas de organização social, de grupos e regiões os mais diversos – celtas, Índia, China, Oceania, índios do noroeste americano. A obra de Mauss tem recebido a mais favorável aceitação porantropólogos contemporâneos das mais diversas inclinações teóricas. Ela presta-se, sem dúvida, a interpretações discrepantes, múltiplas e divergentes, dentro e fora da Antropologia.. A inspiração de Mauss é aceita por sociólogos (de G. Gurvitch a P. Bourdieu, passando pelo grupo que se autodenomina “de vanguarda” do Collège de Sociologie – cf. JAMIN, 1992, p. 457), escritores ou filósofos (R. Callois, G.Battaille, entre outros), historiadores (F. Braudel e a escola dos Annales) ou mestres da Antropologia inglesa (A. R. Radcliffe-Brown, E. E. Evans-Pritchard, R. Firth). A aceitação de Mauss é geral: Guidieri (1984, p. 31) notou que Mauss recebe, de modo bastante freqüente, tratamento “hagiográfico”. Mais recentemente, a Antropologia norteamericana pós Clifford Geertz (seja lá como rotulemos suasdiversas correntes – interpretativista, pós-moderna, textualista etc.), preza em Mauss, de modo surpreendentemente geral, uma suposta aversão à noção de sistema, “confusão inspirada” e “caráter boêmio” (GOMES JR., 1999). Em The predicament of culture, de 1988, James Clifford aproxima a obra de Mauss do que chama de “etnografia surrealista”, notando
Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 14: p. 173-194, jun.2000

1 “Não estou interessado em desenvolver teorias sis-

temáticas [...] Trabalho somente meus materiais e se, ali ou acolá, aparece uma generalização válida, eu a estabeleço e passo a qualquer outra coisa. Minha preocupação principal não é elaborar um grande esquema geral que cubra todo o campo – tarefa impossível –, mas somente mostrar algumas das dimensões do campo do qual apenastocamos as margens [...]. Tendo trabalhado assim, minhas teorias são dispersas e não sistemáticas” (apud FOURNIER, 1993, p. 106).

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NOTA SOBRE MARCEL MAUSS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA
a presença constante de artistas surrealistas em suas aulas. Seria possível argumentar que um desenvolvimento pleno da obra de Mauss foi feito por três de seus ex-alunos, que vêm a ser os pais fundadores do...
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