Ensaio sobre a dadiva

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  • Publicado : 4 de maio de 2012
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O “Ensaio sobre a Dádiva” de Marcel Mauss ocupa um lugar de destaque na literatura antropológica. Este ensaio, de imensa fecundidade para a formulação de teorias sobre a natureza da vida social foi responsável por inúmeros debates nas Ciências Sociais, ao demonstrar a multiplicidade de aspectos - políticos, sociais, econômicos, religiosos, etc - que estão intimamente ligados aos sistemas dedádivas (trocas materiais vividas sob o signo da espontaneidade).
Mauss formulou a idéia-chave de que a circulação de dons e contra-dons corresponde a um “fato social total”, englobando diversos domínios da vida coletiva. Dessa maneira, aplicou e desenvolveu o conceito sociológico clássico dos “fatos sociais”, apresentado por seu tio e professor Émile Durkheim - considerado um dos pais fundadores daSociologia juntamente com Karl Marx e Max Weber - ao apontar para a peculiaridade da sociedade como objeto de estudo científico, excluindo uma abordagem unicamente psicológica.
O “Ensaio sobre a Dádiva” surpreende, entre outras coisas, pela riqueza dos detalhes etnográficos acerca da troca de presentes, extraídos inicialmente da Polinésia, Melanésia e do noroeste americano. Em seguida, ampliou seuestudo nos lugares onde tinha acesso aos documentos e onde o trabalho filológico o tornava possível.
O estudo atentou-se para o regime de direito contratual e para o sistema de prestações econômicas entre os diversos subgrupos que compõem as sociedades ditas “primitivas”. As reflexões mais constantes fazem menção às cerimônias dokula trobriandês, presente na obra “Argonautas do PacíficoOcidental” de Bronislaw Malinowski (1976 [1922]).  Este sistema de trocas que consiste na circulação de braceletes e colares ofertados nas ilhas do Pacífico, obedece a regras bastante rígidas de circulação e se estende até a negociação de bens de outras ordens, mulheres e serviços. Além do kula, Mauss dedicou especial atenção ao potlatch das tribos do noroeste norte-americano, nas quais observa-se adestruição suntuosa de riquezas por intermédio dos chefes.
Um dos pontos centrais abordados na teoria de Mauss diz respeito à tensão entre obrigatoriedade e espontaneidade no universo das trocas. Segundo o autor:
“De todos esses temas muito complexos e desta multiplicidade de coisas sociais em movimento, queremos considerar um único traço, profundo, mas isolado: o caráter voluntário, por assim dizer,aparentemente livre e gratuito e, no entanto, imposto e interessado dessas prestações” ( Mauss 1974: 41)
Essa tensão entre o obrigatório e o espontâneo foi também discutida em outro trabalho de Marcel Mauss em relação ao tema da expressão de sentimentos [2], mas no “Ensaio” ele destacou a pergunta que apontaria o rumo de sua análise:
“Qual a regra de direito e de interesse que, nas sociedades detipo atrasado ou arcaico, faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que força há na coisa dada que faz com que o destinatário a retribua?” (Mauss 1974:42)
Logo no primeiro capítulo, o autor menciona a obrigação de retribuir e faz referência ao depoimento  de um informante maori extraído das notas do etnógrafo Robert Hertz. Assim, ele dedica ao hau (o “espírito da coisadada”), uma resposta para a circulação de dons.
“Vou falar-lhe do hau... O hau não é o vento que sopra. Nada disso. Suponha que o senhor possui um artigo determinado(taonga), e que me dê esse artigo: o senhor o dá sem um preço fixo. Não fazemos negócio com isso. Ora, eu dou esse artigo a uma terceira pessoa que, depois de algum tempo, decide dar alguma coisa em pagamento (utu), presenteando-me com algumacoisa (taonga). Ora, esse taonga que ele me dá é o espírito (hau) de taonga que recebi do senhor e que dei a ele. Os taonga que recebi por esses taonga (vindos do senhor) tenho que lhe devolver. Não seria justo (tika) de minha parte guardar esses taonga para mim, quer sejam desejáveis (rawe) ou desagradáveis (kino). Devo dá-los ao senhor, pois são umhau de taonga que o senhor me havia...
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