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AS PROFESSORAS NO SÉCULO XX: AS MULHERES COMO
EDUCADORAS DA INFÂNCIA1
Jane Soares de Almeida2/UNESP

Uma das crenças ilusórias que o imaginário republicano brasileiro entreteceu e que
se estendeu ao século XX foi a fé do liberalismo no poder da escola. Como baluarte da
concretização dessa crença erigiu-se um outro emblema: a destinação vocacionada
feminina para educar a infância. Essaimagética, que se estruturou nos finais dos oitocentos
e persistiu ao longo do século XX, estava voltada principalmente para um simbolismo
atávico ancorado no potencial de redenção pela pureza e amor ao próximo, atributos dos
quais as mulheres eram/são possuidoras, e teve o efeito de maximizar a importância
feminina na educação escolar. Em contrapartida, enquanto o magistério de crianças se
tornouum espaço feminino, afastou também das salas de aula os homens que buscaram
outras opções na estrutura hierárquica escolar ocupando cargos administrativos.
A feminização do magistério, que dava mostras incipientes já a partir dos finais do
século XIX, seria fortalecida após a República. Na reconfiguração da sociedade que se
desejava progressista e esclarecida, com o potencial de regeneraçãonacional, havia a
crença numa visão de escola que domestica, cuida, ampara, ama e educa. Essa crença vai
ter seu prolongamento nas décadas seguintes à proclamação e, juntamente com as
aspirações de unidade política e a proliferação de um discurso alvissareiro sobre a
educação, vai colocar nas mãos femininas a responsabilidade de guiar a infância e
moralizar os costumes. Nessa visão se constróia tessitura mulher-mãe-professora, aquela
que ilumina na senda do saber e da moralidade, qual mãe amorosa debruçada sobre as
frágeis crianças a serem orientadas e transformadas por dedos que possuem a capacidade
natural de desenhar destinos e acalentar esperanças, coadjuvantes inspiradas de uma escola
que se erige como transformadora de consciências.
Nos dois primeiros terços do século XX seteceu essa convicção, eivada das ilusões
socializadoras do liberalismo republicano. Porém, nos seus anos finais já se demonstraria a
fragilidade dessa crença perante a aridez do panorama social fundido com o agravamento
das desigualdades. Isso porque nem mulheres nem homens na sala de aula possuíram ou
1

Trabalho financiado com bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq e bolsa depós-doutorado no
exterior com auxílio da FAPESP.
2
Docente do Mestrado em Educação da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP e colaboradora do
Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade Estadual Paulista – UNESP/Araraquara.

possuem o poder inerente de atuar decisiva e objetivamente nas armadilhas do sistema
capitalista e capitanear uma educação voltada para a paz e aigualdade social. Longe de ser
uma visão negativista da força da escola, tal afirmativa se ampara no simples fato que os
professores e as professoras também se tornaram reféns do sistema e, ao acumular aulas
em várias escolas para aumentar seus proventos e fazer frente às humanas necessidades de
sobrevivência, enfrentar em sala de aula o sinistro espetáculo da violência social,
submeter-se acondições de trabalho difíceis e curvar-se ante o poder da hierarquia,
também foram cooptados e transformados em reféns do capitalismo pela voragem de um
mundo desumanizado.
Percorrer o século XX pelos caminhos da educação feminina, a formação das
jovens professores pelas escolas normais e a feminização do magistério, tendo como
cenário o Brasil e tomando o Estado de São Paulo como referência econsiderando que a
grande questão intelectual do século XXI continua sendo a emancipação humana pela via
cultural, a defesa de nosso ponto de vista se valerá de uma retrospectiva histórica. Essa
retrospectiva está edificada em torno da educação das mulheres e da inserção feminina no
magistério como resposta às demandas do projeto liberal republicano de universalizar a
escolaridade, a força...
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