"Marquee moon", television

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  • Publicado : 5 de fevereiro de 2013
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Uma constante na minha vida que teria de estar presente nesta coluna inaugural – e possivelmente estará em todas as outras de alguma maneira – é o meu fascínio pelo estranho/estranhamento, sempre objeto de minha busca pelos mais diversos espelhos: pintura, literatura, cinema, música, pessoas, etc. Desde que meu senso crítico aflorou, lá pelos meus catorze anos, é a sensação desafiadora dedesconforto que me instiga a ir adiante, a desbravar algo novo, assimilando
impressões ímpares na minha observação do mundo.

Foi também aos catorze anos que comecei a me voltar mais para a música, tornando-me um dos últimos leitores da revista SHOWBIZZ – sua publicação seria interrompida menos de um ano e meio depois – e aprendendo a tocar contrabaixo depois de aulas frustradas de flauta e tecladona infância. Tal porta aberta traria até mim, tanto quanto o hábito de escrever poesia, este presente em mim desde pequeno, as mais diversas sensações, presentes a princípio nas investidas progressivas do Pink Floyd e nas microfonias e efeitos líricos do Sonic Youth. Desde cedo, o
estranho, o avesso às tendências radiofônicas, me seduzia, parecendo muito mais fácil aos meus ouvidos do que aprogramação das FMs.

Neste contexto li a respeito de uma banda relativamente obscura, de nome curioso: Television. Nenhum jorro de informações, apenas a menção à sua existência na resenha de um disco solo de seu ex-membro, o guitarrista e vocalista Tom Verlaine, intitulado “Dreamtime”, acompanhada de uma breve descrição de sua breve trajetória, composta por dois discos – Marquee Moon (1977) eAdventure (1978) – em uma de minhas SHOWBIZZ. Sedento, cacei material da banda na Internet, me deparando com a notícia de que um terceiro e homônimo disco foi lançado quando da ocasião de uma turnê de reunião do grupo, catorze anos depois de Adventure, e com a oportunidade de escutar o Marquee Moon na íntegra em um (hoje extinto) serviço de rádio online.

Encurtando a história: ouvir o debut doTelevision foi uma das experiências mais estranhas que tive com o mundo da música até hoje (em se tratando do estranho, não há segurança o suficiente para se garantir que não haverá uma superação adiante).

Agora, com as devidas explicações e comentários, a versão integral da história.

O gratuitamente estranho, o estanque em sua estranheza, não é sedutor: deve haver contato, deve mexer comoutrem para sê-lo. E Marquee Moon seduziu por ter sussurrado no ouvido de uma tendência efervescente, sendo a ela associável, mas não o suficiente para simbolizá-la na íntegra: a do levante punk da década de setenta, que teve no ano de 1977 o seu auge.

Marquee Moon mescla-se ao punk por uma questão de berzço: o Television cresceu no palco da CBGB’s, casa de shows que viu ascender os representantesdo pólo nova-iorquino do movimento, como Ramones, Blondie, Patti Smith Group e Talking Heads, e interagiu com tais grupos (Dee Dee Ramone, dos Ramones, tentou entrar para o grupo como guitarrista, Fred Smith, baixista substituto de Richard Hell – que formaria o igualmente seminal Voidoids – foi “roubado” do Blondie e Tom Verlaine gravou com Patti Smith). Também recorreu em alguns momentos àindumentária de trapos característica, e aí encerram-se os vínculos com o punk, podendo-se acrescentar, no máximo, a decadência vivenciada pelo guitarrista Richard Lloyd em decorrência do vício em heroína.

Coloca-se o disco para tocar e vem à tona tudo que há de anômalo, recusando-se a se mesclar, a ser igual: as oito canções gravadas por Verlaine, Lloyd, Smith e o baterista Billy Ficca nãoapresentam flertes com a simplicidade musical de seus contemporâneos, extravasando o binômio três acordes-três minutos e tangenciando a bifurcação crítica social explícita-música sobre farra num mergulho subjetivista e poético. Desde
a faixa de abertura, “See No Evil”, com o baixo da introdução soando quase a la Rolling Stones e a letra urgente e ao mesmo tempo contemplativa, talvez referente ao furor...
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