Manifesto pelo direito de acreditar

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  • Publicado : 25 de maio de 2011
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Acredito na educação com a própria vida: sou professora. Antes de me tornar professora, fui estudante da escola pública brasileira. E para que a estudante de escola pública que eu era pudesse sonhar em se tornar uma universitária, tive de deixar minha cidade (Guarapari-ES) e minha mãe para ir morar com um pai que eu mal conhecia, mas que tinha o poder do capital. O poder do capital me inseriu numcursinho preparatório em que descobri o quanto eu não sabia e o que precisaria saber para ingressar na Universidade. Assim, pela via do exílio e da redenção “ao estranho que me forneceu o passaporte financeiro”, passei no vestibular, e me tornei uma universitária. Hoje, sou Mestre em Estudos Literários e Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. E sou professora.Nos últimos seis anos, lecionei no cursinho gratuito “Projeto Universidade Para Todos”. Lá, vi sonhos de estudantes de escolas públicas (tão semelhantes à meninazinha exilada que aos 17 anos deixou seu mundo) se realizarem. Servi de degrau à conquista de alguns milhares de jovens pobres, e de seus genitores e progenitores que não tiveram as mesmas possibilidades e então se realizavam por tabela nosucesso dos filhos. Vi filhos de pedreiros virando engenheiros e filhas de domésticas virando psicólogas. Uso o impróprio verbo virar para metaforizar, mesmo, a virada nas condições e expectativas de vida dessa gente tanta, e tão forte, e tão resistente. Mas essa felicidade de pobre, mais essa (!) não passou impune. Mais uma vez, as pressões do capital ameaçam anular gente boa, destitui-la dossonhos, dissuadi-la das ilusões. O Projeto Universidade Para Todos parece estar com os dias contados.



O cursinho, de perfil filantrópico, funciona movido a apoios, patrocínios, investimento de quem pode em quem quer e sabe fazer as coisas. Já contou com o suporte de Prefeituras – Guarapari e Serra, por exemplo –, de empresas particulares como a Arcelor, e, em sua época áurea – áurea por contada dimensão e da quantidade de mundos particulares transformados – com a Secretaria de Estado da Educação, Sedu – época em que o PUPT chegou a atender mais de três mil alunos por vez! Acontece que, por motivos que o grande público desconhece, mas que devem ser enormes – para justificar a puxada de tantos tapetes de uma só vez...– a Sedu excluiu-se da parceria com o PUPT. Depois, por bandalheirasinternas à política e aos desvios de verbas da turma e da família do “amigo do povo” Sérgio Vidigal, a Prefeitura de Serra também deixou de investir em “seu futuro”. Daí, seguiu-se uma procissão de debandadas. E o PUPT, sem apoio, não tem mais como funcionar.



Levantando acusações levianas sobre a legitimidade do apoio da SEDU ao PUPT, exigiram da Secretaria de Estado da Educação queabrisse concorrência pública para a escolha da escola que realizaria a preparação de alunos das escolas governamentais para o vestibular. Com isso, conseguiram fazer com que as atividades do cursinho que até então o fazia de maneira sistemática ficasse estacionado, e, por conseqüência, que os alunos da rede pública ficaram sem estudar até que uma decisão fosse tomada.



Mas, por quê, em nome dequê, abrir licitações para realizar um cursinho gratuito se esse cursinho já existia, e se isso atrasa o início das aulas, o início da busca? Talvez para atender aos interesses dos nove cursinhos particulares que se inscreveram para a chamada pública para licitação este ano. E sem se dar conta de que essas tantas escolas se ofereceram neste ano, mas quiçá retirem seu interesse assim que oUniversidade Para Todos deixar de existir, e de ser uma ameaça à manutenção dos privilégios nas mãos em que sempre estiveram.



E quem garante que essas escolas oferecerão ensino igual aos alunos oriundos da rede pública, aqueles que num ontem recente esbravejaram – e ainda gritam, por meio das páginas dos jornais – seus argumentos mesquinhos contra as cotas e os benefícios aos alunos pobres? Ou...
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