Interrogando a identidade – homi bhabha

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Interrogando a Identidade – Homi Bhabha

De dentro da metáfora da visão que compactua com uma metafísica ocidental do Homem, emerge o deslocamento da relação colonial. A presença negra atravessa a narrativa representativa do conceito de pessoa ocidental: seu passado amarrado a traiçoeiros estereótipos de primitivismo e degeneração não produzirá uma história de progresso civil, umespaço para o Socius; seu presente, desmembrado e deslocado, não conterá a imagem de identidade que é questionada na dialética mente/corpo e resolvida na epistemologia da aparência e realidade. Os olhos do homem branco destroçam o corpo do homem negro e nesse ato de violência epistemológica turbado.

Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e dodesejo, Fanon questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver no discurso da soberania social. As virtudes sociais da racionalidade histórica, da coesão cultural, da autonomia da consciência individual, assumem uma identidade imediata, utópica, com os sujeitos aos quais conferem uma condição civil. O estado civil é a expressãoúltima da tendência inata ética e racional da mente humana; o instinto social é o destino progressivo da natureza humana, a transição necessária da Natureza à Cultura. O acesso direto dos interesses individuais à autoridade social é objetificado na estrutura representativa de uma Vontade Geral - Lei ou Cultura – onde Psique e Sociedade se espelham, traduzindo transparentemente sua diferença, sem perda,em uma totalidade histórica.
As formas de alienação e agressão psíquica e social - a loucura, o ódio a si mesmo, a traição, a violência – nunca podem ser reconhecidas como condições definidas e constitutivas da autoridade civil, ou como os efeitos ambivalentes do próprio instinto social. Elas são sempre explicadas como presenças estrangeiras, oclusões do progresso histórico, a forma extrema depercepção equivocada do Homem.

Emergem das três condições que estão subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo.
Primeira: existir é ser chamado à existência em relação a uma alteridade, seu olhar ou locus. É urna demanda que se estende em direção a um objeto externo e, como escreve Jacqueline Rose, "É a relação dessa demanda com o lugar do objeto que elareivindica que se torna a base da identificação". Este processo é visível na troca de olhares entre o nativo e o colono, que estrutura sua relação psíquica na fantasia paranóide da posse sem limites e sua linguagem familiar de reversão: "Quando seus olhares se encontram, ele [o colono] verifica com amargura, sempre na defensiva, que 'Eles querem tomar nosso lugar'. E é verdade, pois não há umnativo que não sonhe pelo menos uma vez por dia se ver no lugar do colono". É sempre em relação ao lugar do Outro que o desejo colonial é articulado: o espaço fantasmático da posse, que nenhum sujeito pode ocupar sozinho ou de modo fixo e, portanto, permite o sonho da inversão dos papéis.

Segunda: O próprio lugar da identificação, retido na tensão da demanda e do desejo, é um espaço de cisão. Afantasia do nativo é precisamente ocupar o lugar do senhor enquanto mantém seu lugar no rancor vingativo do escravo. "Pele negra, máscaras brancas" não é uma divisão precisa; é uma imagem duplicadora, dissimuladora do ser em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo.

É precisamente naquele uso ambivalente de "diferente" - ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo - que oInconsciente fala da forma da alteridade, a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento.

Finalmente, a questão da identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada, nunca uma profecia autocumpridora - é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. A demanda da identificação - isto é, ser para um Outro - implica a representação do...
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