Geografia e modernidade

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Ao recorrer ao conhecimento e às práticas do
Renascimento, da Revolução Científica e do Iluminismo e concluir não ser
absurdo reconhecer a existência de uma tradição geográfica — e aqui a
palavra “tradição” não significa de modo algum fixidez e imobilismo, mas
sim algo que se transforma e se renova à luz do movimento social e
histórico mantendo, entretanto, certos traços —, Livingstone situaa
Geografia como algo crucial para o entendimento de um fenômeno mais
amplo: a Modernidade. Não por acaso, traz para o centro de sua empreitada
nomes como Bodin, Boyle, Kant, Montesquieu, Buffon, Herder, Darwin,
Lamarck — lembrando um pouco o esforço do italiano Massimo Quaini
em A Construção da Geografia Humana (1983) (obra não citada na
bibliografia).
Talvez o maior mérito do autor tenhasido mostrar que, embora a
institucionalização da Geografia date apenas do último quartel do século
XIX, um conjunto vigoroso de conhecimento e prática geográficos foi
essencial na construção e representação do mundo tal como o conhecemos
hoje. O mundo moderno não pode ser entendido fora de ações como
mapeamento, navegação interoceânica, descrição regional, levantamento
de dados elocalização de recursos naturais. Por sua vez, tais ações
impulsionaram e foram impulsionadas pela Cartografia, Cosmografia,
Topografia, Corografia, relatos de viagem e, também, por aquilo que já era
conhecido sob a alcunha de Geografia. Vejamos alguns exemplos. Em
1559, William Cunningham publica The Cosmographical Glasse,
conteinyng the Pleasant Principles of Cosmographie, Geographie,
Hydrographie orNavigation. Em 1611, Bartholomäus Keckermann
escreve Systema Geographicum. 1630 vê A Briefe Introduction to
Geography, de William Pemble. Em 1650, Varenius aparece com
Geographia Generalis. Isaac Watts redige The First Principles of
Astronomy and Geography em 1726. Em 1789, Jedediah Morse surge com
The American Geography…
Reproduzo tais títulos não de forma contraproducente, mas sim
porqueeles iluminam uma outra questão. Num congresso em Paris
promovido pelo grupo “Epistemologia e História da Geografia” (EHGO)
no segundo semestre de 2007, após a explanação de um palestrante sobre a
exploração colonial francesa na África na primeira metade do século XIX,
alguém perguntou se os responsáveis por atividades como descrição,
mapeamento e produção de relatórios se consideravamgeógrafos. Em
outra explanação sobre a confecção de um determinado mapa da Argélia, o
mesmo rapaz fez novamente a mesma pergunta. Os risos de alguns na
platéia eram indisfarçáveis. Pedi a palavra e disse que compreendia a

interrogação do colega, mas não achava que aquela questão era a mais
importante. O que me parecia crucial saber eram quais tipos de práticas
continuavam a ocorrer antes edepois da institucionalização da Geografia
na Universidade. Ainda que o tema da autoidentificação me parecesse
relevante, cabal mesmo era reconhecer a intersecção entre os
procedimentos da Escola Francesa de Geografia e dos seus
“predecessores”.
Não tinha lido Livingstone e, pelo visto, quem levantara aquelas
perguntas também não. Se acaso o tivéssemos feito, tudo teria sido mais
fácil, namedida em que ele faz da institucionalização da Geografia um
processo e não a gênese da ciência geográfica — tal como nos
acostumamos a ver. Ora, o que devemos ter em mente é que o
“surgimento” das modernas Ciências Humanas é algo recente. Em As
palavras e as coisas (1966), Foucault já havia dito isso ao afirmar que o
Homem era um dado novo na ordem do saber. Se a história da Ciência
Moderna é ahistória da hegemonia do paradigma Cartesiano-Newtoniano,
ou seja, da supremacia das Ciências Naturais e Exatas, nada mais “normal”
(e aqui o uso do vocábulo não tem relação alguma com o sentido a ela
concedido por Kuhn) que a institucionalização da Geografia tenha sido
retardada — assim como aconteceu com a Sociologia, a Antropologia e
mesmo com a História. Nesse sentido, nada mais...
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