Frente negra brasileira

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  • Publicado : 28 de novembro de 2012
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As primeiras décadas depois da abolição da escravatura,em 1888, e a proclamação da República, em 1889, foram decisivas para o futuro da população negra no Brasil. Nesse sentido, a medida foi o reconhecimento legal de algo que já existia de fato.
O que significava ser livre para a população afrodescendente em diáspora no Brasil? Ter autodeterminação; ser dona de seu próprio destino. Para apopulação negra, nesse contexto deveras adverso, ser cidadão significava ter direitos iguais – e não ser vista como inferior. Porém, diante da inclusão marginal e das práticas de discriminação racial e tratamento diferenciado em relação à população branca, a cidadania plena continuava sendo um sonho.2 Para transformá-lo em realidade, um grupo das “pessoas de cor” logo percebeu que era necessário unir-see lutar coletivamente, por meio de reivindicações e projetos, pela conquista de respeito, dignidade, reconhecimento, empoderamento, participação política, emprego, educação, terra.
Dessas bandeiras de luta, uma das prioritárias foi a da defesa da educação. Afinal, o analfabetismo era um dos principais problemas que assolavam a “raça negra”. Em 1918, o jornal O Alfinete revelava que oanalfabetismo “predominava em mais de dois terços de tão infeliz raça” (O Alfinete, 22 set.1918, p. 1).3
Se a Abolição não resolveu muitas das necessidades sociais, políticas, econômicas e culturais do negro, ela lhe abriu a possibilidade de organizar-se em condições diferentes daquelas da escravidão, com graus significativamente diferentes de liberdade. “Dada a sua história prévia de vidaorganizacional”, afirma George Andrews, “não surpreende que os afro-brasileiros tenham passado prontamente a reagir a essas novas necessidades e explorar essas novas possibilidades” (Andrews, 1998, p. 218). A educação era concebida por aquelas associações como “uma maneira de o negro ganhar respeitabilidade e reconhecimento, de habilitá-lo para a vida profissional, de permitir-lhe conhecer melhor os seusproblemas e, até mesmo, como uma maneira de combater o preconceito” (Pinto, 1993, p. 238).
O conhecimento histórico constrói-se por meio de perguntas.
A partir desse preceito epistemológico, cumpre elaborar as principais perguntas a serem respondidas neste artigo: de um ponto de vista panorâmico, qual foi a trajetória da Frente Negra Brasileira (FNB), associação que existiu de 1931 a 1937 emobilizou milhares de negros e negras para lutarem por seus direitos? Do ponto de vista específico,o artigo buscará responder às seguintes questões: como aquela que é considerada a maior (e mais importante) entidade negra do pós-abolição discutiu, problematizou e tratou a questão da educação? Quais foram suas iniciativas no campo educacional? A entidade criou o Departamento de Instrução ou de Cultura. Mascomo esse departamento estava estruturado e funcionava? Ele chegou a formular algum projeto político-pedagógico sistematizado? Sabe-se que a FNB criou uma “escola” e alguns cursos, procurando combater o problema do analfabetismo e da deficiência educacional no meio negro, mas como funcionavam essa “escola” e os cursos que eram oferecidos? Eles tinham nítido recorte racial? Quem eram osprofessores? Quais eram os períodos e as séries ofertados? A escola recebia algum tipo de apoio ou subsídio estatal? São essas indagações relacionadas à vida educacional da FNB o foco central da investigação.
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, a “paulicéia desvairada” foi palco de um processo acelerado de urbanização, industrialização e de um amplo crescimento do setor de serviços.No terreno educacional, a cidade abrigava a expansão da rede de ensino, a qual era formada por diferentes. tipos de escolas: pública, particular, leiga, religiosa, profissionalizante, de prendas domésticas. Foi nesse contexto que emergiram escolas para os diversos grupos específicos, dentre as quais aquelas destinadas à “população de cor”.
Não há consenso acerca das razões que levaram os negros...
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