Filosofia

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Razão, desejo e vontade
A tradição filosófica que examinamos até aqui constitui o racionalismo ético,
pois atribui à razão humana o lugar central na vida ética. Duas correntes
principais formam a tradição racionalista: aquela que identifica razão com
inteligência, ou intelecto – corrente intelectualista – e aquela que considera que,
na moral, a razão identifica-se com a vontade – correntevoluntarista.
Para a concepção intelectualista, a vida ética ou vida virtuosa depende do
conhecimento, pois é somente por ignorância que fazemos o mal e nos deixamos
arrastar por impulsos e paixões contrários à virtude e ao bem. O ser humano,
sendo essencialmente racional, deve fazer com que sua razão ou inteligência (o
intelecto) conheça os fins morais, os meios morais e a diferença entre beme mal,
de modo a conduzir a vontade no momento da deliberação e da decisão. A vida
ética depende do desenvolvimento da inteligência ou razão, sem a qual a vontade
não poderá atuar.
Para a concepção voluntarista, a vida ética ou moral depende essencialmente da
nossa vontade, porque dela depende nosso agir e porque ela pode querer ou não
Marilena Chauí
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– 451 –querer o que a inteligência lhe ordena. Se a vontade for boa, seremos virtuosos,
se for má, seremos viciosos. A vontade boa orienta nossa inteligência no
momento da escolha de uma ação, enquanto a vontade má desvia nossa razão da
boa escolha, no momento de deliberar e de agir. A vida ética depende da
qualidade de nossa vontade e da disciplina para forçá-la rumo ao bem. O dever
educa avontade para que se torne reta e boa.
Nas duas correntes, porém, há concordância quanto à idéia de que, por natureza,
somos seres passionais, cheios de apetites, impulsos e desejos cegos,
desenfreados e desmedidos, cabendo à razão (seja como inteligência, no
intelectualismo, seja como vontade, no voluntarismo) estabelecer limites e
controles para paixões e desejos.
Egoísmo, agressividade,avareza, busca ilimitada de prazeres corporais,
sexualidade sem freios, mentira, hipocrisia, má-fé, desejo de posse (tanto de
coisas como de pessoas), ambição desmedida, crueldade, medo, covardia,
preguiça, ódio, impulsos assassinos, desprezo pela vida e pelos sentimentos
alheios são algumas das muitas paixões que nos tornam imorais e incapazes de
relações decentes e dignas com os outros e conoscomesmos. Quando cedemos a
elas, somos viciosos e culpados. A ética apresenta-se, assim, como trabalho da
inteligência e/ou da vontade para dominar e controlar essas paixões.
Uma paixão – amor, ódio, inveja, ambição, orgulho, medo – coloca-nos à mercê
de coisas e pessoas que desejamos possuir ou destruir. O racionalismo ético
define a tarefa da educação moral e da conduta ética como poderio darazão para
impedir-nos de perder a liberdade sob os efeitos de paixões desmedidas e
incontroláveis. Para tanto, a ética racionalista distingue necessidade, desejo e
vontade.
A necessidade diz respeito a tudo quanto necessitamos para conservar nossa
existência: alimentação, bebida, habitação, agasalho no frio, proteção contra as
intempéries, relações sexuais para a procriação, descanso paradesfazer o
cansaço, etc.
Para os seres humanos, satisfazer às necessidades é fonte de satisfação. O desejo
parte da satisfação de necessidades, mas acrescenta a elas o sentimento do prazer,
dando às coisas, às pessoas e às situações novas qualidades e sentidos. No desejo,
nossa imaginação busca o prazer e foge da dor pelo significado atribuído ao que é
desejado ou indesejado.
A maneira comoimaginamos a satisfação, o prazer, o contentamento que alguma
coisa ou alguém nos dão transforma esta coisa ou este alguém em objeto de
desejo e o procuramos sempre, mesmo quando não conseguimos possuí-lo ou
alcançá-lo. O desejo é, pois, a busca da fruição daquilo que é desejado, porque o
objeto do desejo dá sentido à nossa vida, determina nossos sentimentos e nossas
ações. Se, como os...
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