Economia politica

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As crises financeiras internacionais e o Brasil desde 1929: 80 anos de uma história turbulenta
Paulo Roberto de Almeida * 1. Questões sistêmicas relativas às crises financeiras Todas as crises financeiras, sem exceção, têm uma mesma causa fundamental: o excesso de liquidez, ou seja, o crescimento do numerário, como se dizia antigamente – geralmente por permissividade da autoridade pública –,alimentado por ativos dos mais diversos tipos e turbinado por taxas de juros irrealistas (isto é, inferiores ao que seriam as taxas de juros “normais” de mercado). A expansão dos ativos se dá com a euforia dos agentes quanto a ganhos sempre crescentes nos mercados em que atuam – bolsas, imóveis, derivativos financeiros etc. – até que o movimento inverso se produz, geralmente em situação de pânico,dada a inação das autoridades e o comportamento de manada da maior parte dos atores do mercado. O começo do movimento de inversão nos mercados pode ser dado pelo aumento repentino dos juros ou pela súbita realização, por parte dos investidores, de que o retorno dos seus ativos não poderá ser aquele esperado; daí o início da retirada, que logo se converte em manifestações de pânico ou de quedas emdominó, levando as autoridades a intervirem atabalhoadamente, geralmente em caráter tardio ou com alcance apenas parcial. As modalidades e os efeitos imediatos e mediatos de uma crise financeira são, obviamente diversos a cada vez, assim como são distintos os resultados e as consequências institucionais, em termos de regulação ulterior desses mercados, muito embora mecanismos e canais de transmissãopossam ser similares ou funcionalmente equivalentes, em todos eles. Estes são os conceitos básicos em torno dos quais se organiza este ensaio, bem mais focado numa análise qualitativa do problema, do que numa descrição quantitativa das crises financeiras – vistas como processos, bem mais do que como eventos – dos últimos oitenta anos. Sem ter pretensão de fornecer um detalhamento descritivo, sãoapresentados na seção seguinte cinco quadros sintéticos relativos às mais importantes crises financeiras ocorridas nas economias de mercado nos últimos oitenta anos, grosso modo desde 1928 (posto que a quebra da Bolsa de Nova York vinha se manifestando desde um ano antes, por tendências ao declínio em vários dos títulos negociados). Antes disso, a seleção efetuada no quadro sintético sobre ascrises financeiras desde aquela data (vide no apêndice) – construído a partir dos ensinamentos de
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Charles Kindleberger, mas complementado por este autor para as três mais recentes e acrescentado de uma linha relativa ao Brasil – oferece uma visão panorâmica das crises mais importantes dos últimos 80 anos, com base na qual se poderá efetuar uma análise conceitual das mais importantesnesse período. Caberia, talvez, antes de iniciar a análise, inclusive com relação ao Brasil, descrever brevemente as funções de um sistema financeiro e monetário sólido e equilibrado. Um sistema financeiro estável e funcional deveria, em princípio: (a) fornecer liquidez adequada, para sustentar a atividade econômica, controlando o nível geral do aprovisionamento monetário, sabendo-se que, por umlado, os intermediários “criam” moeda – ao recolocar depósitos à vista novamente em circulação – e que, por outro lado, parte dos ativos se torna menos líquida no curso do processo, pois eles são investidos em empreendimentos de maturações diversas; (b) proporcionar crédito suficiente, a preços de mercado, sobretudo em situações de restrições temporárias de liquidez, mediante injeções de recursos;(c) promover ajustes em casos de desequilíbrios no nível geral de liquidez (o que, no plano internacional, é representado por situações de déficits de balanço de pagamentos, quando a injeção de crédito suplementar se faz em moeda de reserva internacional); (d) promover a confiança na estabilidade do sistema, posto que toda e qualquer crise representa, antes de tudo, uma quebra de confiança quanto...
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