Carlota joaquina

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ERICO VERISSIMO


OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO



Digitalização e tratamento do texto por Guilherme Jorge (esta obra foi digitalizada para uso exclusivo por parte de deficientes visuais ao abrigo do artigo 80 do CDADC)




































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1ª Parte


Omédico sai do quarto n.º 122. A enfermeira vem ao seu encontro.
- Irmã Isolda - diz ele em voz baixa - avise o Dr. Eugênio. É um caso perdido, questão de horas, talvez de minutos. E ela sabe que vai morrer...
Silêncio. Uma golfada de vento atravessa o corredor. Ouve-se o ruído seco de uma porta que bate. A irmã de caridade sente um calafrio, lembrando-se da madrugada em que morreu oparalítico do 103; a enfermeira de plantão contara-lhe.
Horrorizada ter sentido o sopro gelado da morte entrar no quarto do doente.
- Ele está em casa da família, doutor?
- Não. Telefone para a chácara do sogro, em Santa Margarida. Diga ao Dr. Eugênio que a Olívia quer vê-lo. Talvez ele ainda possa chegar a tempo...
Encolhe os ombros, pessimista. Acende um cigarro e asmãos tremem-lhe um pouco.
Irmã Isolda caminha para o fundo do corredor, entra na cabina do telefone, disca para o centro.
- Alô! Alô! Fala o Hospital Metropolitano. É um caso urgente. Quero longa distância...
As lágrimas escorrem-lhe pelo rosto.
« ... veio a hemorragia... » - diz a voz velada e distante.
Como se tivesse recebido a mensagem de desgraça primeiro que océrebro, o coração de Eugênio desfalece, as suas batidas tornam-se espaçadas e cavas.
«... o Dr. Teixeira Torres diz que é um caso perdido. Ela sabe que vai morrer... pediu para vê-lo. .. »
Eugênio sente estas palavras com todo o corpo, sofre-as principalmente no peito, como um golpe surdo de clava. Uma súbita tontura embacia-lhe os olhos e o entendimento. Deixa cair a mão quesegura o fone. Só tem consciência de duas coisas: de uma impressão de desgraça irremediável e da pressão desesperada do coração, que a cada batida parece crescer, inchar sufocadoramente. A respiração é aflitiva e desigual, a boca arde-lhe, o peito dói-lhe - é como se de repente lhe tombasse sobre o corpo toda a canseira de uma longa corrida desabalada. Pendura o fone num gesto de autômato e caminhapara a janela, na confusa esperança de que alguém ou alguma coisa lhe grite que tudo aquilo é apenas um sonho mau, uma alucinação.


O Sol da tarde doura os campos. O açude reluz ao pé do bosquete de eucaliptos. Mas Eugênio só enxerga os seus pensamentos. E dentro deles está Olívia, pálida, estendida na mesa de operações, coberta de panos ensangüentados. «Ela sabe que vai morrer... pediupara vê-lo». Ele precisa ir. Imediatamente.


Uma voz infantil flutua no silêncio da tarde, em grito prolongado. Um rapazito vai dar de beber a uma vaca malhada, tange-a para a beira do açude. As imagens do animal e da criança refletem-se na água parada. Paz - pensa Eugênio -, a grande paz de Deus de que Olívia sempre lhe falava. ..
De novo o silêncio. E uma sensação de remorso. Acerteza de que vai começar a pagar os seus pecados, a expiar as suas culpas.
Os olhos de Eugênio inundam-se de lágrimas. Passam-se os segundos. Aos poucos a respiração vai-se-lhe fazendo normal e o que ele sente agora é uma trêmula fraqueza de convalescente.


Mas da própria paz dos campos e da idéia mesma de Deus vem-lhe de repente uma doida e alvoroçada esperança, que lhe toma contade todo o ser. É possível que Olívia se salve. Seria cruel demais que ela morresse assim. Acontecem milagres... Ele lembra-se de casos...
Apanha o chapéu e precipita-se para a escada. Mas porque se detém de súbito no patamar, como se tivesse encontrado um obstáculo inesperado? Eugênio tem a aguda consciência de um sentimento aniquilador: a sua covardia, aquela imensa e dolorosa...
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