Autismo

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O AUTOCONHECIMENTO, O NARRADOR ONISCIENTE, A VIDA COMUM( Texto apresentado no XII Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF realizado entre 23 a 27 de outubro de 2006 em Salvador, Bahia. Alguns pontos deste texto foram desenvolvidos no ensaio “Externalismo, autoconhecimento e ceticismo” (SILVA FILHO, 2006) apresentado no XI Encontro Nacional sobre Ceticismo em maio do mesmo ano. Agradeço ascríticas e sugestões de Paulo Faria, Eduardo Barrio, Plínio Smith e André Porto. Apesar de algumas modificações, foi mantido o tom oral da exposição.)
Waldomiro José da Silva Filho
Universidade Federal da Bahia
waldojsf@ufba.br


RESUMO: Este texto investiga algumas dificuldades que o Externalismo Semântico apresenta para a idéia de “autoconhecimento” e “autoridade da primeira pessoa”. Defendo queessas dificuldades nascem, principalmente, do fato de que os argumentos externalistas frequentemente recorrem a experimentos mentais construídos na perspectiva de um narrador onisciente. Creio que “autoconhecimento” e “autoridade da primeira pessoa” devem ser pensados não do ponto de vista da epistemologia, mas das nossas capacidades práticas ordinárias de avaliarmos, ponderarmos, criticarmos,julgarmos nossos pensamentos, atitudes e ações, principalmente quando queremos dar uma prova, planejar algo, conversar com outras pessoas, justificar, explicar, enfim, quando queremos oferecer razões.

PALAVRAS-CHAVE: Autoconhecimento – Externalismo – Narrador Onisciente


1. Sinto como se estive andando em círculos. Por que eu ainda não me decidi sobre qual o melhor argumento filosófico pararesponder à pergunta sobre a possibilidade ou impossibilidade de conhecermos nossa própria mente? Alguém poderia dizer: “A filosofia é muito difícil”. Talvez. Talvez, no fundo, eu não tenha entendido alguma coisa. Estou ora agitado ora apático, e gasto mais tempo lendo livros e artigos sobre este tema do que seria razoável para uma pessoa comum como eu, que se interessa por outros assuntos da vida enão apenas pela filosofia. Mas onde eu errei para chegar hoje, depois de tantos anos, a ter uma dúvida desta natureza? Se não estudasse filosofia, eu teria esta dúvida?
Quando escrevia este texto, lembrei-me o quanto é embaraçosamente engraçada e absurda a situação do personagem Vitangelo Moscarda do romance Um, Nenhum e Cem Mil de Pirandello (2001): numa certa manhã, sua mulher, Dida, faz umcomentário despretensioso sobre seu nariz – que era levemente torto para a direita (Ibid., p. 19); Vitangelo, ao constatar que nunca percebera aquele seu singelo defeito facial, se dá conta de que nunca soube nem sabe qualquer coisa sobre si. Ele brada:
“Como suportar em mim este estranho? Este estranho que eu mesmo era para mim? Como não ver? Como não o conhecer? Como ficar sempre condenado alevá-lo comigo, em mim, à vista dos outros e no entanto invisível para mim?” [itálicos do autor] (Ibid.,p. 34).

Isso não passaria de um simples jogo cômico numa peça literária fantasiosa caso não existissem argumentos filosóficos importantes que se opõem às nossas crenças não-filosóficas e filosóficas sobre o conhecimento certo e garantido dos conteúdos dos nossos próprios estados mentais. E defato esta é uma dúvida à qual podemos chegar se acompanhamos o raciocínio de alguns filósofos externalistas. Eles dizem que o conteúdo de nossos estados mentais intencionais estão relacionados com o mundo externo e que “os significados não estão na cabeça” (PUTNAM, 1996, p. 13). Grosso modo, para o externalismo, o que é pensado, o que é objeto da experiência e o que é objeto da fala depende, aomenos em parte, do mundo exterior à mente do sujeito ou, ainda, é causado pelo mundo exterior. Ou seja, os estados mentais não poderiam existir, tal como o descrevemos comumente, caso o sujeito não exista num mundo exterior; as atitudes proposicionais, como crenças, desejos, intenções, pensamentos, não poderiam ser corretamente caracterizadas e individualizadas sem os objetos e o mundo no qual a...
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