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Islândia – A Grande Ilusão – João Moreira Salles
8 Fevereiro, 2009 às 8:49 am · Arquivado em Clipagem de Jornais e Revistas, Clipagem de Mundo and etiquetado: Ciclos e Crise, Crash da Islândia, Predominância Financeira da Valorização, Subprime
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JOÃO M. SALLES
Um relatório da Organização das Nações Unidas publicado em outubro de 2007 afirmava que a Islândia, segundotodos os indicadores sociais, havia superado a Noruega e era agora o melhor país do mundo para se viver. Exatamente um ano depois, em 6 de outubro passado, boa parte dos 320 mil islandeses parou para ver o primeiro-ministro Geir Haarde se dirigir à nação. Era o meio da tarde, um horário fora do comum — os canais abertos islandeses começam a transmitir às 18 horas. Ainda assim, lá estava ele,severo, atrás de uma mesa tão sombria quanto seu semblante, tendo ao fundo a bandeira do país. Haarde falou por onze minutos. Ao concluir, disse:
Compatriotas, se jamais houve um momento em que a nação islandesa precisou demonstrar coesão e estoicismo na adversidade, este momento é chegado. Frente à tempestade que se inicia, exorto as famílias a conversarem entre si, a não se deixarem dominar pelodesespero, ainda que para muitos as perspectivas sejam sombrias. Precisamos explicar aos nossos filhos que o mundo não está à beira do apocalipse e que temos de arrancar, do fundo de nós mesmos, a coragem para enfrentar o futuro. Que Deus abençoe a Islândia.
Quarenta e oito horas depois, o primeiro-ministro inglês Gordon Brown -invocou uma lei promulgada depois do 11 de Setembro e incluiu a Islândiana lista de países e organizações terroristas. O Banco Central, o Ministério das Finanças e os dois maiores bancos islandeses se juntavam à Al-Qaeda e ao Talibã. Os ativos dessas instituições no Reino Unido foram sumariamente congelados.
No final de novembro, na sua acanhada sala de trabalho, em Reykjavík, Árni Mathiesen, o ministro das Finanças, balançou a cabeça e, ainda aturdido, disse: “Areação dos ingleses foi a pá de cal. Eles não precisavam fazer aquilo. Não consigo entender como alguém usa uma lei antiterrorista contra um país como o nosso. Nos pôr nessa lista…”
Era o fim de um processo que levara a serena ilha do Atlântico Norte — que não possui exército e cuja polícia não anda armada — ao mais grave colapso de um país em tempos de paz. Em sete dias a Islândia se tornou a maiorbaixa da crise econômica mundial. Não se tratava de uma instituição financeira nem de um setor da indústria, mas de uma nação na bancarrota.
Os islandeses ainda buscam a metáfora justa: um furacão, um tiro, um caminhão que os atingiu por trás. E, se o processo que os derrubou não foi necessariamente o mesmo que levou o sistema financeiro internacional à lona, o trajeto da Islândia nos últimos dezanos talvez venha a ser visto pelos historiadores como exemplo das oportunidades, excessos, vulgaridades e riscos dos tempos em que as regras foram rasgadas para que o dinheiro pudesse gerar dinheiro.
Em 1936, o jovem poeta inglês
W.H. Auden propôs à editora Faber escrever um livro sobre a Islân-dia. Ao chegar ao porto de Reykjavík, ele registrou: “Minha primeira impressão é de uma cidadeluterana, banal e remota.” A sensação associada ao país foi sempre a de isolamento.
Quando os vikings chegaram, em 874, não encontraram quase nada. Trouxeram então suas mulheres celtas raptadas às ilhas britânicas e coloni-zaram a ilha. Trataram as florestas que cobriam um quarto das terras como os mineiros tratam suas minas, sem se dar conta de que eram frágeis e não se regenerariam. Em menos desessenta anos a Islândia se transformou num deserto produzido por homens e ovelhas. O fluxo migratório cessaria em 930, quando o crescimento da população já não era suportável. A maior parte dos islandeses vivos descende diretamente desses primeiros homens e mulheres que aportaram no país há mais de mil anos – e o destruíram.
O desastre ambiental foi o grande responsável pela pobreza até meados do...
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