Analise queixa de defunto - lima barreto

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  • Publicado : 12 de outubro de 2012
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INTRODUÇÃO

Esta obra tem muitos objetivos além de se tornar uma fonte de consulta contara a historia de Antonio da Conceição um homem religioso, cumpridor dos seus deveres para com a sociedade, com a Igreja, com a família e as tradições. Sempre fez tudo certo, jamais molestou ninguém, nunca teve inveja de nada, nem de ninguém. Enfim jamais teve qualquer ambição na vida até que morreu indo parao inferno cumprir uma penitência a qual não tinha motivos.
A única coisa que ele desejava era realizar seu oficio de lustrador de moveis com tranquilidade e honestidade. Julgando-se inocente e injustiçado ele escreve uma carta ao prefeito da sua cidade protestando.
Diz ele em sua carta que ao chegar ao céu, assustado com seu aspecto São Pedro perguntou por que ele estava todo machucado earranhado, com escoriações. Tomou uma bronca porque mesmo depois de morto brigou antes de ser enterrado e possivelmente machucou algum morto. Não teve tempo de explicar, não sabia o que falar e assustou-se com a situação. Então foi sentenciado a descer ao inferno. Prossiga com esta obra para que possa obter melhores conhecimentos.


1. CAPITULO 1

1.1. QUEIXA DE DEFUNTO

Antônio daConceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, a Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tornar publico, mandou-me a carta baixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci oupretendi exercer isso que se chama os diretos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de moveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.
Não fui republicano, não fui florianista, não fui costodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri nasanta paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.
Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte um sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensa mento, graça à doutrinação das seções católicas dos jornais.
Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos “bíblias”, nem a feiticeiro, e apesar de ter tido umfilho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.
Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com total eloquência em galego ou vasconço.
Segui—as, porem, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depoisde minha morte. Morri afinal um destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. E bom, meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morre nela. Não se levam para a cova maldiçoes dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem nãopagamos mais a casa.
Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.
Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres. Calçandoconvenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tenho sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanha mento tiveram que atravessar em toda a extensão a
Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela...
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