Amanda

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  • Publicado : 17 de novembro de 2011
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1. Circunstâncias históricas e biográficas Maquiavel permanece ensombrado pela condenação como autor de uma obra famosa, publicada postumamente com um título dado pelo editor, e na qual é hábito destacar o conselho de que, em política, os fins justificam os meios. Esta caricatura é agravada pela sua reputação de figura isolada e monstro imoral. Maquiavel nasceu em 1469, sendo secretário daSignoria de Florença desde 1498 até à restauração de Giuliano de Médici, em 1512. A sua mais notável actuação foi criar uma milícia popular. O interlúdio republicano levou-o ao estudo da política: o conhecimento das regras de acção forneceria a chave de êxito. Aos 43 anos iniciou a redacção dos livros que o tornaram conhecido, Storie Florentine, Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio, Vita deCastruccio Castracani, Il Principe. Mas vida e obra separam-se aqui porquanto o pensador que emergiu destas obras pouco tem a ver com o político apagado que foi e o eventual pensador cínico que poderia ter sido. O seu contemporâneo Francesco Guicciardini, nascido em 1483, partilhava um idêntico republicanismo e pessimismo desprezivo da natureza humana, também levou a cabo uma análise desapaixonada davida política mas não teorizou a política. Pelo contrário: aceitava o fluxo histórico sem distanciamento espiritual. Foi mais "cínico" que Maquiavel até porque, apesar de convicções em contrário, serviu o Papa e os Médici. Considerava que a estrita racionalidade da política de poder não deve ser perturbada por motivações de ordem espiritual ou moral. A luta quotidiana pelo poder, na acçãodiplomática e militar, não deixam espaço para o sonho. E é este homem que nas suas observações sobre os Discorsi (...) descreve Maquiavel como um entusiasta, um pouco irrealista e optimista. 2. O trauma de 1494 Maquiavel tratou os novos problemas de política de poder num nível especulativo. Sabia que a desintegração da Cristandade em Igreja e Estados nacionais afectara a ordem temporal e espiritual doOcidente. Desintegração significa literalmente quebra do sentido do todo espiritual e implicava uma obsessão pelas jurisdições legais, pela insistência em direitos e pela procura de interesses pessoais e institucionais. Autores ex-conciliaristas, como Cesarini, Piccolomini e Cusa, acabaram por concordar que uma só cabeça deveria assumir a representação efectiva dos interesses da Igreja para que estanão desaparecesse devido à paralisia parlamentar ou às divisões nacionais; tornaram-se monarquioptantes. No campo temporal, verificou-se idêntica concentração da função representativa do monarca nos processos de unificação da França, Espanha, Portugal e Inglaterra. Em Itália, a evolução foi muito diferente. O sistema político italiano no séc. XV assentava na balança de poder entre cinco estados:Nápoles, Florença e Milão equilibravam o poder de Igreja e Veneza. As desinteligências periódicas nesta aliança eram colmatadas, até Ludovico Sforza apelar à intervenção francesa. Em 1494 Carlos VIII, rei de França, invade a Itália e inicia um período multissecular de ocupação estrangeira. Piero de Médici é expulso de Florença pelo regime republicano. Os invasores franceses, espanhóis e alemãesreduziram à impotência a mais civilizada área europeia. E, facto traumático, a invasão não resultava de desequilíbrio económico, revolução social ou defesa de princípios religiosos ou políticos. Era um caso puro de vitória de um poder militar superior sobre outro pior equipado. Maquiavel partilha a experiência desta geração que assiste à destruição da ordem pelo poder bruto. Para quem sofre estetrauma, a moralidade deixa de contar em política. O moralista é visto como o oportunista que se aproveita do status quo para manter os outros em lugares inferiores; é preferível descrever a realidade imoral do que tentar encobrir a imoralidade do poder. A teoria política deve concentrar-se na racionalidade da acção política e na organização militar. A resposta política seria a criação de um poder...
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