O Conceito de Trauma e a Clínica dos Casos

Páginas: 8 (1933 palavras) Publicado: 22 de maio de 2014
O Conceito de Trauma e a Clínica dos Casos “Difíceis”: Reflexões a Partir das Contribuições de Ferenczi e Winnicott
Oliveira, Nadja; Tafuri, Maria Izabel

Descritores: Trauma; Clinica; Encuadre psicoanalitico; Tecnica psicoanalitica.

Os sofrimentos que recebemos cotidianamente nos consultórios nos impõem diversas reflexões sobre as falhas iniciais no processo de constituição psíquica e atécnica psicanalítica. Afinal, já faz cerca de um século que a psicanálise endereça não apenas os “bons neuróticos”, mas também os casos “difíceis”, que dizem
respeito a sofrimentos que antecedem o Complexo de Édipo e que fazem referência a falhas ambientais muito precoces, experimentadas como da ordem do excesso às capacidades psíquicas do indivíduo. São casos em que a palavra nem sempre funcionacomo continente, pois envolvem sofrimentos não alicerçados pela
linguagem: eles remetem a algo precedente à capacidade representacional.
Ferenczi foi um dos primeiros analistas a se debruçar sobre os casos “difíceis” – que não conseguiam associar livremente e não se ajustavam à rigidez do enquadre tradicional. Estes pacientes apresentavam dificuldades nos processos de simbolização e pobreza emseu fantasiar. A dedicação clínica e teórica de Ferenczi a estes casos o levou a resgatar o trauma como paradigma teórico ao se pensar o processo de constituição psíquica e a prática psicanalítica (Kupermann, 2008).
De fato, o conceito de trauma comparece na clínica com casos “difíceis” e promove abertura importante para a compreensão e o manejo destes pacientes. Este conceito envolve algunsaspectos importantes e comuns entre autores como Freud, Ferenczi e Winnicott, tais como: a implicação do ambiente externo, a precocidade do evento traumático, a experiência de excesso frente à imaturidade do psiquismo, e a invocação de “afetos aflitivos” (Oliveira, 2011).
Enquanto Freud fundou a psicanálise a partir de reflexões sobre a sedução traumática como etiologia da histeria e teorizou esteconceito tendo em vista seu papel nos sofrimentos de natureza neurótica, Ferenczi e Winnicott destacaram a associação entre trauma e aspectos psicóticos da personalidade, incorrendo em
defesas que envolvem clivagens egóicas, experiências dissociativas, desintegração, despersonalização, dentre outras. É com base nas reflexões destes dois autores que o conceito de trauma traz uma abertura que subvertea rigidez do setting analítico tradicional a fim de abarcar sofrimentos de natureza mais precoce, o que percebo como pertinente a partir da minha própria experiência clínica.
Endereçar este tipo de sofrimento, em contrapartida à psicanálise de adultos, esteve na psicanálise de crianças desde o início deste campo, em especial a partir de Melanie Klein. Por meio de suas reflexões sobre a vidapsíquica do bebê, Klein abriu espaço para se pensar de forma mais aprofundada sobre o sofrimento psíquico
precoce, envolvendo crianças pequenas e sofrimentos de natureza psicótica. Além disso, a psicanálise de crianças envolve particularidades técnicas que diferem da psicanálise com adultos, apesar de não diferir em termos da escuta do analista.
É inspirado na psicanálise de crianças que Ferenczitraçou adaptações da técnica analítica a fim de viabilizar o atendimento de “casos difíceis”. Segundo Ferenczi (1931/1992), às fundadoras da psicanálise de crianças foi necessário “introduzir modificações substanciais na técnica de análise de adultos, quase sempre no sentido de uma atenuação do rigor técnico habitual” (p. 70). Da mesma forma, para tratar pacientes cujos traumas sobrecarregaram seudesenvolvimento no sentido da psicopatologia (Winnicott, 1967/2007), Ferenczi (1928/1992) preconizou a necessidade de elasticidade da técnica psicanalítica.
Segundo Ferenczi, é essencial que o analista funcione como um elástico e se permita ceder às tendências do paciente (Ferenczi, 1928/1992), se adequando ao ritmo do analisando ao invés de enquadrá-lo na rigidez da técnica clássica. Por meio...
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