O trabalho de restauro

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  • Publicado : 3 de julho de 2012
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A RESTAURAÇÃO COMO DISCIPLINA
Querer e saber “tombar” monumentos é uma coisa. Saber conservá-los fisicamente e restaurá-los é algo que se baseia em outros tipos de conhecimento. Isso requer uma prática específica e pessoas especializadas, os “arquitetos dos monumentos históricos”, que o século XIX precisou inventar.
A partir da era clássica, o estudo da construção antiga faz parte da formaçãodos arquitetos. Mais que isso estes contribuíram ativamente para o avanço da arqueologia. Em compensação, tudo está por aprender no que diz respeito ao gótico. A situação da arquitetura românica é ainda pior: esta é desprezada e julgada sem valor, não apenas pelos arquitetos, mas também por historiadores da arte da estatura de Caumont.
Obstáculo mais grave, enfim, o trabalho de consolidação erestauração já não satisfaz os restauradores. Ele não dá prestígio, não requer o “gênio criador” do artista e tampouco remunera bem.
No curso do século XX, os estudos preparatórios para a conservação e restauração dos monumentos históricos exigiram a aquisição suplementar de novos e numerosos conhecimentos científicos e técnicos, ligados sobretudo à degradação dos materiais. Mas a história daarquitetura continuou sendo absolutamente fundamental. Ela representou, como veremos, um grande trunfo na Itália e nos países de língua alemã, onde muitas vezes foi integrada ao ensino das escolas de arquitetura. Na França, esse ensino sempre esteve ausente na Escola de Belas-Artes.
A intervenção de restauradores especializados nos monumentos históricos exige não apenas conhecimentos seguros,históricos, técnicos, metodológicos. Ela implica também uma doutrina que pode articular de forma muito diferente esses saberes e esses savoir-faire, modificando os objetivos e a natureza da intervenção arquitetônica. A nova disciplina que se constituiu a partir da década de 1820, a conservação dos monumentos antigos, reconhece necessariamente os valores e os novo significados atribuídos ao monumentohistórico.
(...) no fim do século XVIII (...) Esquematicamente, duas doutrinas se defrontam: uma, intervecionista, predomina no conjunto dos países europeus; a outra antiintervecionista, é mais própria da Inglaterra. Seu antagonismo pode ser simbolizado por aquele dos dois homens que as defenderam com mais convicção e talento: Viollet-le-Duc e Ruskin, respectivamente.
Ruskin, seguido por Morris, defendeum antiintervencionismo radical, de que até então não havia exemplo, e que deriva de sua concepção de monumento histórico. O trabalho das gerações passadas confere, aos edifícios que nos deixaram, um caráter sagrado. As marcas que o tempo neles imprimiu fazem parte de sua essência.
O valor dos monumentos do passado deriva menos da grande ruptura dos savoir-faire provocada pela RevoluçãoIndustrial do que de uma tomada de consciência própria ao século XIX. O desenvolvimento dos estudos históricos permitiu a esse século pensar, pela primeira vez, o caráter único e insubstituível de todo acontecimento, assim como de toda obra que pertence ao passado.
Conclusões: é-nos proibido tocar nos monumentos do passado. “Nós não temos o mínimo direito de fazê-lo. Eles não nos pertencem. Pertencem emparte àqueles que os edificaram, em parte ao conjunto das gerações humanas que virão depois de nós”. Qualquer intervenção sobre essas “relíquias” é um sacrilégio. No sentido próprio, restauração significa “a mais completa destruição que um edifício pode sofrer”, “a coisa é uma mentira absoluta”. O projeto restaurador é absurdo. Restaurar é impossível. É como ressuscitar um morto.
Morris, talvezmelhor que Ruskin, denuncia a inanidade da reconstituição ou da cópia. Para Ruskin e Morris, querer restaurar um objeto ou um edifício é atentar contra a autenticidade que constitui a sua própria essência. Ao que parece, para eles o destino de todo monumento histórico é a ruína e a desagregação progressiva. De fato, a intransigência com a qual condenam a restauração se explica por sua fé...
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