O que faz o brasil, brasil

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  • Publicado : 11 de abril de 2012
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Autor: Roberto Damatta
A ilusão das relações raciais (capítulo 3)
“O Brasil é um inferno para os negros, um purgatório para os brancos e um paraíso para os mulatos”, esta frase dita por Antonil no século XVIII, numa sociedade dividida entre senhores e escravos, na verdade, foi muito mal entendida. Realmente, não custa relembrar que as teorias racistas européias e norte-americanas não eramtanto contra o negro ou o amarelo, que eram nítida e injustamente inferiorizados relativamente ao branco, mas que também eram vistos como donos de poucas qualidades positivas enquanto “raça”. O problema maior dessas doutrinas, o horror que declaravam, era isso sim, contra a miscigenação das “raças”. Saber por que tais teorias tinham esse horror à miscigenação é conduzir a curiosidade intelectualpara um dos pontos-chaves que distinguem e esclarecem o “racismo à europeia” ou “à americana” e o nosso conhecido, dissimulado e disseminado “racismo à brasileira”. Antonil não fala de branco, negro e mulato numa equação biológica. Ao contrário, com eles constrói uma associação social ou normal, pois, relaciona o branco com o purgatório, o negro com o inferno e o mulato com o paraíso. Pelaprimeira vez se estabelece um triângulo para o entendimento da sociedade brasileira e isso, é significativo e importante. O Brasil não é um país dual onde se opera somente com uma lógica do dentro ou fora; do certo ou errado; do homem ou mulher; do casado ou separado; de Deus ou Diabo, etc. Ao contrário, no caso de nossa sociedade, a dificuldade parece ser justamente a de aplicar esse dualismo decaráter exclusivo; ou seja, uma oposição que determina a inclusão de um termo e a automática exclusão do outro, como é comum no racismo americano ou sul-africano. Nós temos um conjunto infinito e variado de categorias intermediárias em que o mulato representa uma cristalização perfeita.
Por que não há duvida alguma de que ele percebeu o valor positivo que associamos ao intermediário, a categoriaque fica no meio, ao ser situado entre os extremos e que, por isso mesmo, permite a sua associação e a negação de suas tendências e características antagônicas. Tal associação permite dizer que, no Brasil, ao contrário do que aconteceu em outros países, não ficamos com uma classificação racial formalizada em preto e branco. Desse modo, o nosso preconceito seria muito mais contextualizado esofisticado do que o norte-americano, que é direto e formal. O fato de existir uma legislação rígida, racista e dualística nos Estados Unidos, revela esse dualismo claro que indica quem está dentro ou fora, quem tem direitos e quem não tem; quem é branco ou preto. Mas aqui, conforme sabemos, há uma radical exclusão de todas as categorias intermediárias, que são absorvidas, com todos os riscos epenalidades, às duas categorias principais, em franca oposição e em aberta distinção.
Em uma sociedade que tentou eliminar a tradição imemorial das leis implícitas, aquelas que podiam ser aplicadas ou não, que podiam ser lembradas ou não, que podiam variar de acordo com quem praticava o crime ou não, o mulato, o intermediário, representava a negação viva de tudo aquilo que a lei estabeleciapositivamente. E é precisamente isso, conforme sabe todo racista, que implica a ideia de miscigenação, já que ela importa contato sexual entre pessoas que, na teoria racista, são vistas e classificadas como pertencendo a espécies diferentes, daí a palavra “mulato”, que vem de mulo, o animal ambíguo e híbrido por excelência; aquele que é incapaz de se reproduzir enquanto tal, pois é o resultado de umcruzamento entre tipos genéticos altamente diferenciados.
Ele mostrava o pecado e o perigo da intimidade entre camadas sociais que deveriam permanecer diferenciadas, mesmo que fossem teoricamente consideradas iguais. O que se busca eliminar é a relação, pois a ênfase da ideologia social e dos valores é sempre no papel do indivíduo como centro e a razão de ser da sociedade. Nesse sistema de...
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