O eternamente futuro

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Nietzsche – o eternamente futuro
Não me recordo precisamente em que livro estava, nem seu conteúdo, mas um
aforisma de Nietzsche orienta há anos o modo como ensino filosofia. Diz que os
filósofos se equivocam ao supor que o valor de seus escritos está no edifício construído,
quando o que importa são as pedras que deixam para outros construírem. Para que
apresentar algum sistema filosófico,se os filósofos do futuro deveriam ser tentadores,
provocando, perturbando, atraindo?
Nietzsche não só questionou a pretensão sistemática; procurou também um novo
modo de escrever filosofia, um que permitisse leituras afetivas, por intensidades.
Recuperando o estilo das máximas e do aforisma, seus livros, como poucos, forçam à
proximidade do mistério, inquietando-nos com o modo como levamos avida e
convidando-nos a querer mais. Uma experiência talvez comparável à descrita por
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) quando lia Walt Whitman:
simultaneamente, sentia “uma ereção abstrata e indireta” no fundo de sua alma e queria
ser “a rameira de todos os sistemas solares”. Ao invés de “livros de cabeceira”, seus
textos são roteiros de viagens, tentando-nos a sair por aí e adesejar a impossível
compatibilidade entre a embriaguez e o estudo minucioso.
Ao longo dos anos, como muitos, colecionei alguns fragmentos de Nietzsche que
me espantavam. A coleção talvez forme um “retrato falado”; provavelmente constitua
só um espelho de meus afetos, mas um espelho mágico, onde me desconheço e me
recordo de querer.
Destaca-se da memória o famoso diálogo entre a ave derapina e os cordeiros em
A Genealogia da Moral. Com argúcia e humor, Nietzsche sabe que cada um de nós,
mesmo aquele que se diz o pior dos mortais, se acha o máximo. O que nos diferencia
entre nobres e vis é o modo como dizemos sim a nós mesmos. Alguns são como os
cordeiros, que precisam negar duas vezes para construir a afirmação de si. Num
raciocínio aparentemente lógico, os cordeiros acusam aave de rapina, que os devora, de
ser má; a seguir, percebem que não são aves de rapinas; concluem, por fim, que são
bons.
Só aparentemente lógico; para acusar, é preciso “separar a força do que ela
pode”, isto é, precisa-se criar a ficção de um sujeito-causa que permanece para além das
ações efêmeras, tidas como efeitos. Quando responsabilizamos alguém pelos
sofrimentos que experimentamos,devemos sempre supor que outra coisa poderia ter
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sido feita. Acrescentamos ao acontecido o desejável e odiamos alguém por não ter feito
nosso desejo, odiamos o mundo por não ser à medida dos nossos desejos, ao invés de
desejá-lo em sua indefinida multiplicidade e reserva. O livre-arbítrio, para Nietzsche,
nada mais é do que fruto da vingança, uma invenção de moralistas para poder acusartodos os que são diferentes deles mesmos. Não consideramos a fatalidade do que
acontece como oportunidade – alguém conhece mudança que não implique sofrimento?
– e criamos o dever e o mundo verdadeiro, acusando repetida e sucessivamente: “você
não devia ter feito o que fez”, “a vida não devia ser como é”, “deve existir a vida
verdadeira”.
O cordeiro, ao dar sentido a seu sofrimento, não secontenta em inventar sujeito,
verdade, dever e livre-arbítrio; compara-se ainda à ave para “transformar sua impotência
em mérito”. De fato, supõe-se mais forte, pois além de ter o desejo de fazer o que a ave
faz, tem uma força suplementar que o permite conter-se e não fazer o “mal”. Ficção
extremamente danosa, pois é a criação do ideal ascético: é preciso mais força para se
conter do que parafazer. Bom é aquele que supera seus desejos e não faz o que quer,
bons são os fracos que não lutam pelo querem.
De posse do conceito de ressentimento – é ele que origina o raciocínio do
cordeiro, este animal de rebanho – podemos olhar ao redor com algum humor, por
exemplo, para o discurso das matronas moralistas, que se atribuem valor por não
fazerem o que não conseguem fazer, embora desejem,...
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