O escritor sai da sombra antonio gonçalves filho

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ESTADÃO – CADERNO 2, Domingo, 22 de Março de 2009 | Versão Impressa


O ESCRITOR SAI DA SOMBRA - Antonio Gonçalves Filho

Nova edição de Crônica da Casa Assassinada marca 50 anos do lançamento do romance de Lúcio Cardoso, autor redescoberto em teses e adaptações teatrais
Meio século após a publicação desse que é um dos monumentos literários do País, o romance Crônica daCasa Assassinada, do mineiro Lúcio Cardoso (1912-1968), vai ganhar não uma, mas duas adaptações teatrais, e ainda uma nova edição da editora Civilização Brasileira, que relança toda a obra do autor, mais estudado na Academia que lido fora dela. Lástima. Em 1959, Crônica da Casa Assassinada foi saudado como obra-prima, o que não impediu que outros livros seus ficassem fora de catálogo pelas quatrodécadas seguintes. Melhor destino não teve a poesia desse que é considerado o Dostoievski brasileiro, quase tão ignorada nas escolas como seus contos e peças, para não falar do único filme dirigido pelo escritor, aos 37 anos, A Mulher de Longe (1949), ainda menos conhecido que o restante de sua obra.
Filho de uma tradicional família mineira, Cardoso buscou nela seu ?rosebud?wellesiano, trocando as cores do romance regionalista, em voga na época de suas primeiras publicações (anos 1930), pelo preto-e-branco de sua literatura feita de sombras e passado, embora conduzida pela luz da modernidade. Seus personagens, torturados pela culpa de amores incestuosos ou interditos por outras razões, são tão desconcertantes que até Mário de Andrade, numa carta dirigida ao autor arespeito de A Luz no Subsolo, reconheceu sua singularidade, revelando que esse "romance estranho e assombrado", embora lhe parecesse um tanto absurdo, tinha criaturas loucas o bastante para o deixar com a sensação de que recebera "um bruto soco no estômago".
A Luz no Subsolo é de 1936. Naturalmente, ainda não tem a dimensão monumental de Crônica da Casa Assassinada, seu romancepolifônico em que cada personagem corresponde a um dos "pedaços" de Minas que lhe faltam e não podem ser recuperados, ardendo no vazio existencial à espera que Cardoso se fizesse inteiro com seus fragmentos. É no vácuo entre uma e outra época que paira essa ficção, segundo a professora de Literatura Maria Teresinha Martins, autora de uma tese sobre o escritor (Luz e Sombra em Lúcio Cardoso). Elamostra como os pontos de vista dos vários narradores servem para projetar luz e sombra na protagonista Nina, mantendo unida - ainda que na decadência - a sua perturbada família. Na velha Chácara dos Meneses, de Vila Velha, dominada por paixões incestuosas, rivalidade e loucura, Cardoso usa o método proustiano para tratar do desajuste com uma certa aura de normalidade, como se ele mesmo fosse agovernanta Betty, escondido atrás do silêncio de quem tudo observa, acompanhando a rotina dos diários gideanos escritos por ela ou André, que mantém uma relação incestuosa com a suposta mãe, Nina, mulher de um dos irmãos proprietários da fazenda. Há muito de Gide, assim como de Tolstoi e Bernanos em Lúcio Cardoso, e ainda mais de Julien Green. O movimento pendular dos personagens solitários, encerradosnas sombras da escuridão moral e aspirando pela luz pascaliana, faz lembrar todos esses grandes autores a quem Cardoso já foi comparado por críticos no passado, a começar por Lêdo Ivo, aqui mesmo no Estado, em 1944, época do lançamento de Dias Perdidos.
Mas, ao contrário de André Gide, cujos ?jornaux? eram suficientemente reveladores para provocar burgueses escandalizáveis, osdiários de Cardoso são marcados por um pudor excessivo e certo policiamento que dificultam ao leitor a entrada em seu mundo privado. O Estado teve acesso a um dos poemas inéditos do escritor (leia ?Receita de Homem? na página seguinte) em que ele revela sua irrefreável inclinação homossexual - nunca assumida abertamente por ele, um autor que entendia as mulheres como talvez só Machado de Assis...
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