O corpo transparente.

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O CORPO TRANSPARENTE

ORTEGA, F.: O corpo transparente:
visualização médica e cultura popular no
século XX.
História, Ciências, Saúde – Manguinhos,
v. 13 (suplemento), p. 89-107, outubro 2006.

O corpo
transparente:
visualização médica
e cultura popular no
século XX
The transparent body:
medical imaging and
popular culture in the
twentieth century

Este artigo analisa o sucessodas novas
tecnologias de visualização médica, as quais
têm dado relevância ao interior do corpo
humano que não encontra precedentes
nas nossas sociedades. Essas tecnologias
extrapolam o campo estritamente
biomédico e se introduzem no campo
cultural e jurídico. O artigo traça uma
genealogia das diferentes tecnologias
médicas de visualização do corpo
humano e do cérebro no século XX, desdeos raios X até as imagens mais
sofisticadas de CT, IRM e PET. Pretende-se
explorar as modificações na corporeidade
resultantes da crescente visualização,
assim como a recepção dessas tecnologias
em tribunais e na cultura popular,
especialmente na literatura, no cinema e
nas revistas de divulgação.
PALAVRAS-CHAVE: corporeidade;
visualização médica; cultura popular;
neurociências.ORTEGA, F.: The transparent body:
medical imaging and popular culture in
the twentieth century.
História, Ciências, Saúde – Manguinhos,
v. 13 (supplement), p. 89-107, October 2006.
In today’s societies, successful new medical
imaging technologies have focused unprecedented
attention on the inside of the human body. These
techniques have jumped the walls of the
biomedical field per se,penetrating the fields of
culture and law. The article traces a genealogy of
twentieth-century medical techniques used to
visualize the human body and brain, from Xrays to the more sophisticated CTs, MRIs, and
PET scans. It explores the changes that these ever
more numerous visualization techniques have
occasioned in our corporality and examines how
these technologies have been received in thecourtroom and in popular culture, especially in
literature, movies, and magazines.

Francisco Ortega

KEYWORDS: corporality; medical imaging;
popular culture; neurosciences.

Filósofo, professor adjunto do Instituto
de Medicina Social da Uerj
Rua São Francisco Xavier, 524, 7º andar, Bloco B
20599-900 Rio de Janeiro – RJ – Brasil
fjortega@uol.com.br fjortega@superig.com.br

v. 13(suplemento), p. 89-107, outubro 2006
v. 13 (suplemento), p. 89-107, outubro 2006

89

FRANCISCO ORTEGA

Na Montanha Mágica


1

O romance é
publicado em alemão
em 1924. A história se
encerra com a
eclosão da Primeira
Guerra Mundial, em
1914, e a
incorporação do
protagonista à
contenda. Como Hans
Castorp havia
permanecido sete
anos no sanatório
Berghof em Davos, e o
episódiodos raios X
acontece no início de
sua estada, este deve
ter ocorrido em 1907.

D

eus meu, eu vejo!” Essa frase corresponde ao título do capítulo que Thomas Mann dedica ao encontro de Hans Castorp
com os raios X no seu monumental romance, A montanha mágica
(Der Zauberberg). Esse texto captura de modo absolutamente singular a atmosfera de estranheza e o impacto subjetivo causado pelas novasimagens nos indivíduos que tomaram contato com elas
na virada para o século XX. A primeira experiência do protagonista
com a nova tecnologia acontece em 1907,1 num momento em que
os raios X eram ainda uma relativa novidade. Uma das primeiras
questões que surgem no referido capítulo diz respeito à relação da
visão com a legibilidade, que vai colocar em xeque o pretenso estatuto deneutralidade e objetividade das imagens. Defrontando-se
pela primeira vez com as imagens de raios X, Hans Castorp não
consegue ‘ver’ nada. É só depois de o médico do sanatório, o conselheiro Behrens, mostrar-lhe as diferentes partes anatômicas, que
Castorp exclama: “Sim, sim, eu vejo ... Deus meu, eu vejo!” (Mann,
2000, p. 299). O episódio enfatiza a necessidade de um olhar
decodificador que ajude a...
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