O colera em maranguape

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  • Publicado : 10 de outubro de 2012
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Texto apresentação III Encontro Internacional de Historia e Historiografia

“uma doença não existe como um fenômeno social até que se convencione que ela existe – até que seja nomeada”.
A partir da afirmação do pesquisador norte americano Charles Rosenberg exposta acima, apresentamos uma proposta de percepção da doença que não apenas busque decifrar qual o agente etiológico de dada moléstia ecompor um quadro numérico com dados de acometidos e vítimas fatais, muito menos uma simples listagem de receitas e fármacos que a combatam. A leitura que propomos é, sim, um olhar para a construção social da doença, pois como disseram Sournia e Rouffie “aquilo que chamamos de doença apenas tem existência em relação ao paciente e à sua cultura” .
A doença é mal que por princípio pode atingir atodos, sem se ater a fronteiras geográficas e sociais, e, diante da qual, em muitas vezes, o ser humano se vê sem nenhuma proteção. Contudo, a doença não existe como uma figura em latência na natureza, cuja existência é correlata a sua relação com o universo humano.
A cultura circundante ao indivíduo acometido por um agente epidêmico, seja bactéria ou vírus, tende a criar explicações própriaspara o conjunto de sintomas que caracterizam tal doença, e é a partir da interpretação da relação entre homens sadios, agentes de saúde, religiosos, administradores públicos e dos próprios doentes com o conjunto sintomático que podemos ver a construção cultural de determinada doença.
Como disse Le Goff “a doença pertence a história, em primeiro lugar, porque não é mais do que uma ideia, um certoabstrato numa complexa realidade empírica, e porque as doenças são mortais.”
O cólera-morbus possui uma trajetória que o coloca como um dos grandes flagelos do século XIX, desde a Índia, mais especificamente da região do baixo Bengala, onde constituía seu “nicho ecológico” e possuía caráter endêmico, “(...) os especialistas consideram o termo endemia apropriado para doenças que provocam, em média,um número estável de vítimas em certa região ou país durante muitos anos (por exemplo, dez anos ou mais).”
Em meio a 06 grandes surtos durante o século XIX, o cólera deixou de ser apenas uma doença localizada nas redondezas do pobre, insalubre e místico rio Gangues, travessou continentes nos conveses dos navios. Chegou ao coração econômico europeu, onde se embalava o sonho megalomaníaco dedominação mundial. O cólera atacou fortemente Londres e várias outras metrópoles europeias. E foi no terceiro surto, que durou da década de 1840 a de 1860 que cólera chegou ao território brasileiro.
Chegou ao Brasil em 1855 deixando marcas funestas por onde passava, no Pará – como nos contou brilhantemente Jane Beltrão - encontrou terreno propício em meio aos rios e lagos para tornar-se especialmentemortífero, levando a um estado crítico de duas centenas de milhares de pessoas sofrendo sem acesso a médicos ou medicação. Mas esperariam eles por tal? Combateram a peste com o que tinham a mão, com plantas há muito utilizadas pelo saber silvícola. Contudo, o cólera era um mal desconhecido, ainda sem tratamento específico, fosse para médicos de jaleco e nariz empinado ou para curadores práticos em meioa jardins e plantas.
No Sul – nos ensinou Nikellen Wiitter - fez com que autoridades políticas e médicas olhassem atônitas para o mal que se apoderava das vidas dos gaúchos sem poderem fazer frente a peste.
O Rio de Janeiro, capital do império, sofreu horrores com o cólera, a então maior cidade brasileira estava entulhada de casas, sem condições ideais de saneamento e ruas onde corriamesgotos domésticos a céu aberto. Ali a peste tornou-se especialmente mortal.
O conjunto de estados que posteriormente se convencionou chamar de Nordeste brasileiro também não passou ileso a essa primeira investida do vibrião colérico ao Brasil, a peste manifestou-se fortemente em quase todo ele. As populações de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte sofreram bastante com a fúria do mal...
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