O cavaleiro inexistente

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  • Publicado : 23 de abril de 2013
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Na armadura branca completamente equipada, no interior de sua tenda, uma das mais ordenadas e confortáveis do acampamento cristão, tentava manter-se deitado e continuava pensando: não os pensamentos ociosos e divagantes de quem está para pegar no sono, mas sempre raciocínios determinados e exatos. Pouco depois, erguia-se sobre um cotovelo: necessitava de alguma ocupação manual, como lustrar aespada, que já era bem brilhante, ou passar graxa nas juntas da armadura.»
Italo Calvino, in «O Cavaleiro Inexistente»
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O Cavaleiro inexistente e o homem sem sombra – ou de quando não se vê a imagem no espelho
Com Cervantes, o universo cavaleiresco torna-se alvo do riso corrosivo que destrói as estruturas de um mundo representado na literatura comopalco de afirmação do homem como herói valoroso entregue às demandas do divino ou aos amores corteses que o motivavam para os duelos, as aventuras, às mirabilias. Seguindo a trilha cervantina, Ítalo Calvino com seu romance O cavaleiro inexistente polemiza com toda a tradição dos romances de cavalaria e dialogicamente ri de todo esse universo idealizado, apresentando-nos a decadência, senilidade efinitude dos personagens magníficos que povoavam os romances de cavalaria medievais, particularmente de Carlos Magno e seus paladinos.
Em Calvino resta-nos como modelo de cavaleiro apenas uma armadura reluzente com voz metálica e dentro dela apenas o vazio e a solidão que representam o definhamento de uma visão épica de mundo. O cavaleiro do romance de Calvino não existe: Agilulfo Emo Bertrandino dosGuildiverni e dos Atri de Corbentraz e Surra, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez, usa uma armadura imaculadamente branca e dentro dela não existe nada: apenas uma voz metálica e os movimentos indicam a existência-inexistência desse comedido e sistemático cavaleiro.
Agilulfo é inexistência munida de consciência e vontade. Modelo de cavaleiro, sua ética é marcada pelos valores do mundocavaleiresco-medieval. De sua armadura, impecavelmente lustrada e brilhante, que se move por todos os lugares, apenas se ouve uma voz fria e impessoal. Correto, impecável e preso aos seus valores, ele é o modelo do varão que se dedica a sua causa (mesmo sem justificativa). Só que ele não existe corporalmente. Do modelo medieval, restou apenas a armadura, as armas e o código a ser seguido.
Fruto doestilhaçamento do paradigma medieval da cavalaria que estava entregue a uma missão e a um ideal religioso, ético ou amoroso, Agilulfo é apenas a sua armadura. Se Cervantes ao rir da cavalaria medieval nos premiou com um cavaleiro que era o avesso de tudo o que se teve nas novelas de cavalaria: Lancelot, Galaaz, Tristão, Perseval... Calvino, com engenho e arte, retira o cavaleiro de cena e deixa suaexterioridade: a armadura. Sarcasticamente destituída de corporeidade, mas representativa de um mundo decadente e ainda reverenciado pelos ícones que o demarcavam. Apenas aparência, Agilulfo repete, automaticamente, os valores cavaleirescos, mesmo em situação de franca derrocada desse universoo. Duplo rasurado do cavaleiro medieval, o personagem calviniano é hiperbólico enquanto exterioridade eautomatismo:
Na armadura branca completamente equipada, no interior de sua tenda, uma das mais ordenadas e confortáveis do acampamento cristão, tentava manter-se deitado e continuava pensando: não os pensamentos ociosos e divagantes de quem está para pegar no sono, mas sempre raciocínios determinados e exatos. Pouco depois, erguia-se sobre um cotovelo: necessitava de alguma ocupação manual, comolustrar a espada, que já era bem brilhante, ou passar graxa nas juntas da armadura. (CALVINO, 1997: 372).
Agilulfo é frio como o metal de sua armadura, enrijecido e não dado à vida. Daí porque não se entrega a pensamentos "ociosos e divagantes" e, sim, a raciocínios determinados e exatos. Perfeccionista e metódico, seus atos são pautados pela razão extremada e completo desprezo pelo que possa...
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