A psicologia do medo e da dor

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  • Publicado : 11 de março de 2012
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A PSICOLOGIA DO MEDO E DA DOR

 

J. Landeira-Fernandez e Antônio Pedro de Mello Cruz

 

Mãos frias e suadas, olhos arregalados, sobrancelhas contraídas, respiração ofegante e coração saltando pela boca. Certamente você já identificou como medo a sensação subjetiva relacionada com tais reações. O fluxo sanguíneo também é alterado em seu curso, sendo redistribuído dapele e das vísceras para os músculos e cérebro. A palidez da face em situações de perigo é um reflexo claro deste fenômeno. A expressão “amarelou de medo” – o melhor talvez fosse empalideceu de medo – muito provavelmente adveio da analogia com esta reação fisiológica. Outro efeito menos aparente é a capacidade do medo suprimir momentaneamente a reação a estímulos nociceptivos (estímulos quedeflagram dor). A finalidade deste conjunto de reações, que expressamos desde os primeiros anos de nossas vidas, é mobilizar padrões comportamentais de fuga ou de luta diante de estímulos ambientais sinalizadores de perigo. Outras espécies animais também compartilham dessa habilidade, embora não possamos assegurar que tenham a consciência subjetiva da experiência emocional de medo. Na verdade, estudoscontemporâneos sugerem que o cérebro dispara tais reações antes mesmo que possa processar conscientemente os detalhes do estímulo sinalizador de perigo.

O medo origina-se do contato do organismo com dois tipos de sinais de perigo: inatos e aprendidos. Os inatos dizem respeito àquelas situações que ao longo da evolução filogenética foram selecionadas como fontes de ameaça à sobrevivênciade uma espécie. Um gato, ou simplesmente o odor deste animal, sinaliza perigo em ratos que jamais tiveram contato prévio com felinos. O mesmo ocorre em macacos diante de cobras e em bebês humanos expostos a altura ou ruídos intensos. Outros estímulos podem passar a sinalizar perigo através de um processo de aprendizagem chamado condicionamento clássico de medo. Isto ocorre quando estímulosaparentemente inofensivos são associados a estímulos aversivos, especialmente aqueles que deflagram dor. Por exemplo, um animal passará a expressar medo diante de um som que tenha sido previamente associado com a apresentação de choques elétricos. Similarmente, crianças podem tornar-se amedrontadas na presença de uma pessoa ou algo que anteriormente lhe infligiu dor ou extremo desconforto. Finalmente,podemos adquirir novos medos, ao longo da nossa história particular, através de determinadas relações sociais também envolvendo aprendizagem do tipo associativa.

Tem sido justamente através da manipulação experimental de medos inatos e condicionados em animais de laboratório e em seres humanos que os neurocientistas do comportamento, uma espécie de grupo de pesquisadores que incluipsicólogos, biólogos, médicos, entre outros profissionais afins, vêm promovendo avanços jamais imaginados no entendimento da participação do cérebro no sistema motivacional de medo. Sabe-se hoje que as relações entre o cérebro e o comportamento seguem um caminho de duas vias. Não apenas o cérebro altera o comportamento, mas também o comportamento altera o cérebro. E isto somente é possível graças à enormeplasticidade das células nervosas ou neurônios que compõem este órgão. O cérebro humano contém cerca de 50 a 100 bilhões destas células, as quais se comunicam entre si através de um processo extremamente dinâmico denominado sinápse. Cada uma dessas células forma entre 1.000 a 10.000 sinápses. Em apenas 1 mm3 de tecido nervoso do córtex cerebral humano existem aproximadamente 100.000 neurônios,formando algo em torno de 1 bilhão de sinápses (existem mais sinápses no seu cérebro do que a quantidade de estrelas na nossa galáxia). Trata-se de uma verdadeira “orquestra sináptica” que dá origem a todos os processos comportamentais ou psicológicos, desde os mais simples, como perceber uma luz ou um som, até os mais complexos como reagir a um estímulo e expressar uma emoção. Sentimos medo de...
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