Transdisciplinaridade e arteterapia

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  • Publicado : 11 de junho de 2011
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TRANSDISCIPLINARIDADE E ARTETERAPIA

Uma das questões sempre presentes em Arteterapia e geradora de polêmicas constantes refere-se à sua área de abrangência. A quem “pertenceria”esse campo de trabalho? Esse é um tema recorrente em eventos, sendo sempre comum que, em algum momento, alguém proponha essa pergunta e levante uma bandeira com intenção de fincá-la em algum restrito território.Parece-me que, quanto maior o afastamento da práxis arteterapêutica, maior também será a ênfase na tentativa de vincular arteterapia a uma única área de conhecimento. Mas aqueles que estão realmente envolvidos com o dia-a-dia da prática arteterapêutica sabem, de forma visceral, que o campo é transdisciplinar. Sabem, assentados no fazer cotidiano, o quanto são bem-vindos os múltiplos conhecimentosdas estratégias artísticas, como são clareadoras as proposições das teorias psicológicas, como o olhar das estratégias educacionais poderá contribuir e como as proposições das teorias da criatividade abrem trilhas benéficas...
Considerando esses aspectos, observando a palavra “transdisciplinaridade”, teremos mais algumas pistas. O prefixo “trans” nos dá uma primeira trilha, pois nos lembra quehá que atravessar e ultrapassar. A própria palavra em sua etimologia nos indica a necessidade de ir mais além dos continentes formais de cada disciplina e nos convida a formar tramas, a construir redes e integrar urdiduras. Desse modo, a transdisciplinaridade nos insere nas conexões sistêmicas, nos descortina a visão da transculturalidade e nos propicia uma abordagem “ecumênica” em relação aosdiferentes campos do saber, pois já ficou muito para trás, na noite dos tempos, a visão medieval das corporações de ofício, com seus procedimentos imutáveis e seus reduzidos territórios do saber. Agora é tempo de “transgredir”, “trans-passar” e “trans-formar”.
Boaventura Souza Santos (2004) nos convida a buscar outras formas de compreender o conhecimento científico, que façam dele um reconhecimento“prudente” para uma vida decente. E nos diz no que consiste na revalorização de outros conhecimentos que existem no mundo: conhecimentos populares, conhecimentos dos camponeses, dos indígenas, que hoje se revelam preciosos, como é o caso da biodiversidade. Existe no mundo uma ecologia de saberes...
A Arteterapia, por formar-se pelo entrecruzamento de vários campos de conhecimento, étransdisciplinar pela própria natureza de suas origens. Dessa multiplicidade e complexidade, integrantes da citada “ecologia dos saberes” de que nos fala Santos, vou eleger um tema presente no dia-a-dia do ofício de arteterapeuta: o importante aspecto da iniciação artística e expressiva promovida pela arteterapia. A partir dele proponho a seguinte questão: o que pode significar levar a arte, através dasestratégias arteterapêuticas, à vida das pessoas? O que pode significar conviver com a arte para alunos, clientes ou para os próprios arteterapeutas?
Na tentativa de responder, lembro Fritjof Capra (2003), que, em Meio ambiente no século XXI, conta sobre sua escola, na qual desenvolve desde 1995 um programa chamado de “Eco-Alfabetização”, que defende a necessidade de informar de forma ampla,criativa e profunda sobre as interações com o meio ambiente. Parafraseando Capra, poderíamos pensar que a arteterapia promoveria uma “arte-alfabetização” no meio ambiente. E, se considerarmos, como André Trigueiro (2003), que o meio ambiente é algo que inicia dentro de nós, alcançando tudo que nos cerca e as relações que estabelecemos com o universo, estaremos, através desse conceito, retornando ao pontode partida da “ecologia dos saberes”: tudo está interligado, integramos a grande teia da vida, e o que fazemos aqui poderá reverberar e ter ressonância muitos milhares de quilômetros além...
Bem, e se o que nós arteterapeutas fazemos é arte aplicada aos processos terapêuticos e aos processos de autoconhecimento e transformação, o que poderá acontecer com o “nosso meio ambiente”? Lembro,...
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