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"Nem o papa aguentou!"
18/02/2013
No dia da renúncia do papa, uma amiga minha querida, portadora de uma personalidade difícil (acha quase
todo mundo bobo), mandou-me uma mensagem assim: "Nem o papa aguentou!".
Afinal, o que ele não teria aguentado? Peço licença à minha amiga nojenta para tomar sua exclamação e
fazer um pouco de filosofia selvagem a partir dela.
Antes, esclareço que nãosofro do comum preconceito de pessoas inteligentinhas contra a Igreja Católica.
Qual é esse preconceito? Hoje em dia, num mundo em que todo o mundo diz que não tem preconceito, o único
preconceito aceito pelos inteligentinhos é contra a igreja: opressora, machista, medieval...
Estudei anos num colégio jesuíta. Graças aos padres aprendi a coragem intelectual, o gosto pelas letras, o
valor daliberdade religiosa, o esforço de pensar de modo claro e distinto, o respeito pelas meninas, ao mesmo tempo
em que crescíamos num ambiente no qual Eros nunca foi demonizado; enfim, só tenho coisas boas para dizer sobre
meus anos de escola jesuíta.
Cresci numa escola na qual, durante a semana, discutíamos como um "mundo mau" pode ter sido criado por
um Deus bom. No final de semana, íamos à praiatodos juntos, dormíamos lá, meninos e meninas, em paz,
namorando, e enchíamos a cara. Noutro final de semana, o mesmo grupo ia a favelas ajudar doentes.
Tive, numa pequena amostra, uma prova do enorme papel civilizador da igreja e do cristianismo como um
todo no mundo.
Dizer que a igreja padece de males humanos e que compartilhou de vi olência de todos os tipos é óbvio
demais para valer a pena umminuto de reflexão.
Em jargão teológico, essa "dupla personalidade de bem x mal" não é bipolaridade moral, mas uma dupla
identidade: a igreja teria um corpo mundano (pecador como o de todo o mun do) e um corpo místico (voltado a Deus,
à eternidade, inserido no mundo assim como Deus encarnou num homem, Jesus).
Portanto, não sou um desses ateuzinhos que, no fundo, não passam de "teenager" bravoporque o pai não
existe. Parafraseando o grande Beckett, "God does not exist --that bastard!" (Deus não existe --aquele bastardo!).
Joseph Ratzinger (Bento 16) é um homem inteligente que quis levantar o nível do debate dentro da igreja e
na sociedade como um todo. Um filósofo. Resistiu bravamente à contaminação por uma teologia populista e
marqueteira, mas sucumbiu à ancestral vocação humanapara a me ntira e para a vida burocrática.
Hoje, quase tudo no mundo é populista e marqueteiro; lembremos da máxima da grande escritora portuguesa
Agustina Bessa-Luís: hoje todo mundo quer agradar, até o metafísico.
Foi isso que o papa não aguentou: ele esbarrou no diagnóstico da contemporaneidade feito pela Agustina
Bessa-Luís. Todo o mundo só quer agradar "seu eleitorado" e Bento 16 quistratar seu eleitorado como gente grande.
Resultado: angariou inimigos em toda parte porque rompeu o jogo comum de "falar muito e dizer nada", típico
da sensibilidade democrática em que vivemos e também da igreja na "sua base popular".
Num mundo de sensibilidade democrática, ninguém quer saber de nada a sério. A "afetação infantil" (Bessa Luís, de novo) nos define. O "povo é sempre lindo e certo!".Na democracia, a soberania do governo emana do povo; daí que achar que o "povo é sempre lindo" é um
efeito colateral deste modo da soberania. Logo, todo o mundo só quer agradar, e Bento 16 não quis agradar, quis
falar a sério.
Sucumbiu às intrigas palacianas, à inércia da estupidez do mundo de ruídos e baladas metafísicas.
As pessoas odeiam quem quer falar a sério. Não querem mais um papa, esim um consultor de sucesso
espiritual e Ratzinger não tem vocação para isso.
A maioria das pessoas quer apenas comprar, divertir-se, ter uma autoestima alta, gozar livremente, não sentir
culpa alguma; enfim, ter uma vida moral de criança de dez anos de idade.
Nem o papa aguentou. Preferiu "fracassar como Sócrates" a vencer como um demagogo feliz. No iníc io da
quaresma (período em que...
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