Rousseau, a liberdade e o trabalho

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 6 (1493 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 29 de julho de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
ROUSSEAU, A LIBERDADE E O TRABALHO


"... na minha opinião a sociedade é tão natural à espécie humana como a decrepitude para o indivíduo e de que aos povos são necessárias as artes, as leis e os governos, como as muletas o são para os velhos. A diferença toda está em que o estado de velhice decorre unicamente da natureza do homem e o da sociedade decorre do gênero humano, não imediatamente,como quereis, mas unicamente, como o provei, graças ao auxílio de certas circunstâncias exteriores que podem acontecer ou não, ou, pelo menos, acontecer mais cedo ou mais tarde e, consequentemente, apressar ou retardar o progresso. Inúmeras dessas circunstâncias dependem mesmo da vontade do homem; vi-me obrigado, para estabelecer uma paridade perfeita, a supor no indivíduo o poder de acelerar suavelhice como a espécie tem o de retardar a sua. Tendo, pois, o estado de sociedade um termo extremo, ao qual os homens podem querer chegar mais cedo ou mais tarde, não é inútil mostrar-lhes o perigo de ir tão depressa e as misérias de uma condição que tomam como a perfeição da espécie. "1

LIBERDADE: "UMA FACA DE DOIS GUMES"

No trecho extraído da Carta ao Sr. Philopolis, Rousseau adverte que oprogresso acelerado das ciências, das artes, das leis e dos governos afastaria o homem da natureza e o conduziria a uma velhice precoce. Sendo o homem livre para fazer um bom ou mal uso das faculdades que recebera potencialmente, é ele também o responsável pela maioria dos males que o afligem na vida em sociedade. A partir disso, Rousseau alerta quanto aos perigos do rápido aperfeiçoamentohumano.

A perfectibilidade e as outras faculdades estão presentes, mas ainda não desenvolvidas no homem selvagem que, vivendo dos frutos que a terra lhe oferece de forma espontânea e preocupado apenas com a auto-conservação, possui poucas necessidades e prescinde da convivência com outros homens. De constituição robusta, o homem no estado de natureza não teme a morte, pois não a conhece. Suasenfermidades são todas naturais e, temendo somente a dor e a fome, está bem porque tem pouquíssimos sofrimentos. Na construção hipotética desse homem selvagem, Rousseau baseou-se em relatos de predecessores como Montaigne, que num de seus ensaios fala de homens que "afirmaram mesmo nunca terem visto um epilético, remeloso, desdentado ou curvado pela idade."2

As circunstâncias exteriores ou fenômenosnaturais, como tremores de terra e inundações, forçam o homem a abandonar a sua vida solitária e favorecem o surgimento das primeiras associações, fato que também aparece no Ensaio sobre a origem das línguas:

"As associações de homens são, em grande parte, obra dos acidentes da natureza ? os dilúvios particulares, os mares extravasados, as erupções dos vulcões, os grandes terremotos, osincêndios despertados pelo raio e que destroem as florestas, tudo que atemorizou e dispersou os selvagens de uma região, depois reuniu-os para reparar em conjunto as perdas comuns. " 3

Assim, a emergência de obstáculos naturais possibilita ao homem a rápida ampliação de suas luzes e o exercício de sua imanente liberdade de escolha. Porém, a capacidade de aperfeiçoar-se pode conduzi-lo não somente a umamelhora, mas também a degradação. A liberdade aparece, junto com a perfectibilidade, como a base de inúmeros sofrimentos que atingem o homem no estado de sociedade, que nada mais é senão o fruto da vontade humana. Como salienta Salinas Fortes:

"A liberdade é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que revela nossa superioridade e espiritualidade, é o princípio de nossos desregramentos."4Quando o homem torna-se sociável, deixa de ser guiado pelo amor de si, que o fazia "velar pela própria conservação", e adquire o hábito de se comparar aos demais, passando a agir de acordo com o amor próprio. Então, graças ao seu novo modo de vida surgem vícios e paixões como a inveja e o ciume, que não existiam anteriormente. Moralmente depravado, o homem apresenta-se nesse estado, como o seu...
tracking img