Resumo de artigo cientifico .mpb: a trilha sonora da abertura política

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  • Publicado : 10 de outubro de 2011
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- Música Popular Brasileira" eram extremamente valorizadas pela indústria fonográfica brasileira (Napolitano, 2001). Esse quadro ficaria ainda mais contrastante após 1976, quando se consolidou a "política de abertura",1 do regime militar, como ficou conhecida a estratégia de distensão (e reaproximação política) entre o regime militar e os setores liberais da sociedade civil, levada a cabo pelosdois últimos governos militares (Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo). Consagrada como expressão da resistência civil ainda durante os anos 1960, a MPB ganhou novo impulso criativo ao longo do período mais repressivo da ditadura, tornando-se uma espécie de trilha sonora tanto dos "anos de chumbo" quanto da "abertura". No período que vai de 1975 a 1982, os artistas ligados à MPB afirmaram-secomo arautos de um sentimento de oposição cada vez mais disseminado, alimentando as batidas de um "coração civil" que teimava em pulsar durante a ditadura. A MPB tornou-se sinônimo de canção engajada, valorizada no plano estético e ideológico pela classe média mais escolarizada, que bebia no caldo cultural dessa oposição e era produtora e consumidora de uma cultura de esquerda (Miceli, 1994).

Em1970, sob o impacto do exílio e da censura, Caetano Veloso, em tom premonitório, fez a seguinte declaração ao Pasquim: "O som dos anos 70 talvez não seja um som musical. De qualquer forma o único medo é que esta talvez venha a ser a década do silêncio".

Já em 1980, a crítica musical percebia o quanto o contexto autoritário e a mística da década anterior haviam prejudicado a avaliação mais friasobre a cena musical brasileira: "Curiosa década, estes anos 70. Depois da fermentação crescente dos 60, entramos nela num clima de expectativas: e agora? E depois? E ficamos tão encharcados de ansiedade que nem vimos a década passar" (Bahiana, 1980, p.151).

Entre uma e outra fala, situadas nas duas pontas da década de 1970, notamos a dificuldade de entender a historicidade específica da cenamusical brasileira, pressionada entre a criatividade exuberante da década anterior e suas demandas políticas que fizeram da canção brasileira uma das mais vigorosas expressões do pensamento na esfera pública, ainda que perpassada pela lógica de mercado (Napolitano, 2001).

A reflexão acadêmica proposta ainda durante o período de consolidação da transição democrática também parece não saber comodefinir a cena musical do período:

Os anos 70 mostraram a consolidação e maturação dos ídolos de maior calibre da década anterior, mas não acrescentaram nenhum dado realmente novo à tradição da MPB. Menos pelas canções e mais pelas posturas dos nossos dois mais importantes compositores (Chico Buarque e Caetano Veloso), a discussão durante todo o período foi marcada pelas "patrulhas ideológicas"[...] década sombria, poucas alegrias e muita luta política no sentido de redemocratizar o país. (Aguiar, 1994, p.152)

Nessa lógica, o rock é que seria a música paradigmática da abertura. Minha proposição é um pouco diferente, talvez o rock brasileiro talvez tenha sido a música da transição democrática da Nova Republica, e não a da abertura política, stricto sensu, ou seja, aquela propostapelo próprio regime militar. Portanto, a imagem do período, tanto na memória como na história, é de uma cena musical marcada pela constante ameaça do silêncio imposto pela censura, pelo domínio das fórmulas de mercado e pela preponderância do político sobre o estético.

Neste artigo, tentarei mapear a grande complexidade que envolve a cena musical dos anos 1970, particularmente o gênero MPB. Longede ser um mero desdobramento passivo das lutas políticas do período ou dos movimentos musicais da década anterior, a MPB dos anos 1970 experimentou o auge da popularidade e maturidade criativa, elementos que, por sua vez, não traduzem diretamente nem uma penetração universal nas audiências populares, nem uma autonomia estética idealizada voltada para poucos. A canção engajada, em todas as suas...
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