Resenha tempos modernos

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  • Publicado : 10 de abril de 2013
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Escrever sobre um clássico está longe de ser uma tarefa fácil. Falar de um filme que muitos já viram e que faz parte do imagético mundial, na verdade, pode ser uma tarefa extenuante, pois precisamos encontrar nuances distintas, em vez de se render ao sentimento alimentado por anos a fio, afinal tratamos de uma obra que data da década de 30. Mas falar de Tempos Modernos vai além, pois quem oencabeça é ninguém menos que Charles Chaplin, um verdadeiro ícone cinematográfico que esbanja um cânone da sétima arte. De ator a produtor, passando pelos postos de montador e compositor e assumindo as cadeiras de roteirista e diretor, minhas mãos tremem só em cogitar a possibilidade de abordá-lo. De qualquer maneira, o cerne da questão é que a obra e seu criador não só merecem uma crítica, mas umacomposição textual que faça jus ao seu legado, e aqui estou.
Curiosamente, Tempos Modernos consegue ser atual o bastante ao ponto de, nem mesmo seu título perder-se ao longo das décadas. Certamente um homem à frente de seu era, Chaplin compôs um hino a sua época, tempo de grandes indústrias que encarceravam o homem, como também foi capaz de antever que a evolução, ao contrário do que certosficcionistas gostavam de golfar, apertaria ainda mais os grilhões outrora estabelecidos pela Revolução Industrial. Logo, antes de tudo, a obra sobre a qual discorro é um verdadeiro retrato da sociedade ao longo dos anos que, mesmo consciente de seu “avanço regressivo”, continua ultrapassando fronteiras imaginárias que jamais serão quebradas. Enquanto alguns são aptos apenas a entrever a comédia pastelãoou o musical bem-humorado, o que Tempos Modernos fatalmente escancara é que o rumo das esteiras e do homem-mecanizado alcançará patamares cada vez mais desenfreados, e a tecnologia, levada aos quatro ventos como aliada, desponta mesmo é como termo que reduz à equação a uma só conclusão: o humano nunca foi tão escravo da máquina, e isso, potencialmente, tende apenas a aumentar.
Sábio que era, opalhaço de bengala e chapéu-coco tinha perspicácia para dar e vender, e até distribuir, talvez, ao ponto de transformar Tempos Modernos (desde seu título, uma ironia) em uma película acessível, já que usava e abusava do humor pastelão e do musical compassado, adequado aos movimentos refletidos pelo projetor. Assim, enquanto público ri dos passos desastrados do personagem Carlitos, o que o cérebroprocessa é a mensagem apocalíptica. Mas evidentemente, nada disso seria possível se apenas fosse resumida à mensagem em si, como acontece no recente Febre do Rato, de Cláudio Assis. Portanto, toda a linguagem de planos, textos e mise-en-scène se faz necessária para adequar a premissa aos olhos de quem a vê.
Quando acompanhamos o operário sendo sugado pela esteira e, transitando entre roldanas erodas dentadas, moldando-se de maneira flexível ao espaço reduzido e mutável, o que Chaplin esconde ali é a ideia de que o ser humano é adaptável, e adaptável em demasia, já que é capaz de não só se deixar se levar por seu dia-a-dia, como de se encaixar a inúmeras adversidades sem sequer questionar. Vide os hilários instantes em que, ainda na fábrica, Carlitos refaz os movimentos de apertar porcasmesmo quando não está executando a tarefa propriamente dita.
Arrojado também ao traçar um paralelo com os ditames de um sistema que se prende cada vez mais às necessidades de seus governantes e menos às urgências do povo, seguimos o trabalhador honesto numa verdadeira odisseia em busca de emprego, já que seus compassos e gestos atrapalhados – reflexos da inaptidão do homem ordinário a um mundo emconstante mudanças – o fazem saltar de empresa em empresa sem jamais conseguir se fixar. E mesmo a humilde residência que o personagem e seu amor idealizado na figura da mendiga arranjam após tantas caminhadas, só reflete a dificuldade de sustento enfrentada por qualquer família de classe média, com suas vigas caindo e cadeiras que se quebram. E nem mesmo o cenário aprazível do lago à janela...
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