Rafestin

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 91 (22722 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 8 de junho de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
POR UMA GEOGRAFIA DO PODER*
Claude Raffestin

Crítica da geografia política clássica
I - Nascimento da geografia política Paradoxalmente, quanto mais jovens as ciências do homem, mais tentadas elas são a estabelecer sua genealogia. Ninguém espera uma exposição histórica no início de um trabalho de física. Em contrapartida, em se tratando de sociologia, de ciência política ou geografia, asreferências a uma filiação não causam estranheza. Os historiadores das ciências do homem se permitem esforços muitas vezes consideráveis para buscar no passado as origens dessas disciplinas. Por muito tempo, todos esses discursos históricos tiveram por objetivo antes mostrar a existência de uma continuidade que fundamentar a identificação de "momentos" epis-temológicos. A geografia política nãoescapou dessa tradição e descobriu, de Heródoto a Ratzel, uma infinidade de ancestrais, tais como Platão, Aristóteles, Botero, Bodin, Vauban, Montesquieu, Turgot etc., para só citar alguns que, por uma razão ou por outra, foram chamados a testemunhar a antiguidade do projeto político em geografia. Não se trata aqui, em absoluto, de desvalorizar esse género de pesquisa erudita indispensável àcompreensão de uma génese, mas nos parece ainda mais significativo, ao menos para o nosso propósito, destacar os "momentos mais densos" da epistemologia geográfica. Não abriremos um debate para saber se uma epistemologia da geografia é possível, e no entanto seria necessário fazê-lo, na medida em que muitos epistemólogos, a partir de Piaget, não reconhecem um estatuto epistemológico para a geografia. Éparticularmente revelador que Piaget não considere a geografia humana uma ciência "nomotética". O que surpreende ainda mais porque a geografia, da mesma forma que a economia ou a demografia, por exemplo, com menos sorte talvez, procura descobrir "leis". Seja como for, postulamos a existência de uma possível epis-temologia da geografia, em razão de sua própria busca de "leis", quantitativas ou não.Somos encorajados nesse caminho pela geografia política, ela própria fundada de fato, em toda a sua amplitude, por Ratzel, em 1897. Todo o projeto ratzeliano é sustentado por uma concepção
*

. Capítulos relevantes do livro.

nomotética, e pouco importa, nesta fase da análise, saber se ela-foi ou não bem-sucedida. A obra de Ratzel é um "momento epistemológico", quer se trate de suaAntropogeografia ou de sua Geografia política. Ratzel está num ponto de convergência entre uma corrente de pensamento naturalista e uma corrente de pensamento sociológica que a análise atenta de suas fontes revelaria. Ainda que isso seja difícil, pois Ratzel, excetuando-se algumas notas e observações, quase não nos fornece referências. Contudo, no decorrer de sua obra é relativamente fácil descobrir aquilo quebuscou nas ciências naturais, na etnografia, na sociologia, e sobretudo na história. Sem dúvida, Ratzel foi influenciado por historiadores como Cur-tius e Mommsen, por geógrafos como Ritter e Reclus, mas igualmente por um homem como Spencer, que o fez descobrir a lei do desenvolvimento, mais tarde retomada por Darwin. Foi também influenciado pelo rigor quase matemático de um Clausewitz. O quadroconceituai de Ratzel é muito amplo e tão naturalista quanto sociológico, mas seria erróneo condená-lo por ter "naturalizado" a geografia política, algo que às vezes ocorreu... O próprio Ratzel recuou e reconheceu que a comparação do Estado com organismos altamente desenvolvidos não era produtiva. Insistindo no Estado, na circulação e na guerra, ele revela preocupações e sobretudo uma perspectivasociopolítica que pouco se satisfariam com uma simples demarcação dos métodos puramente biológicos. Pode-se considerar a segunda edição a obra-mestra que não somente orientou e influenciou a escola alemã, mas também, de diferentes maneiras, todas as outras escolas da geografia. Não queremos dizer que os autores que seguiram Ratzel sejam seus epígonos, mas simplesmente que a obra ratzeliana,...
tracking img