Poesia contemporania brasileira

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  • Publicado : 4 de março de 2013
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Uma imagem da contemporaneidade é sugerida – ou apenas pressentida – por Jean-François Lyotard nesta reflexão sobre o pensamento do filósofo e sinólogo François Jullien: um “longo percurso oblíquo entre terrenos incertos” (1998: 11). Nesse contexto, um grupo de autores vêm constituindo uma poética da hesitação, que tem como estratégia prioritária trazer para o primeiro plano a fragmentação dodizer e dos sentidos. As conclusões parciais apresentadas aqui se relacionam ao projeto “A lírica pós-moderna no Brasil”: estudos de Paulo Henriques Britto, Age de Carvalho, Augusto Massi, Alexei Bueno, Arnaldo Antunes, Rodrigo Garcia Lopes, Alckmar Luiz dos Santos, Adriano Espínola, Cláudia Roquette-Pinto e Valdo Motta.1

Fragmentos do corpo, do desejo, decompõem a cena primitiva, bíblica, dasexualidade e, simultaneamente, atualizam-na, em No Éden, de Cláudia Roquette-Pinto. Pela estratégia da fragmentação, deslizam para a cena a memória da infância, outras identidades, e o peso das coisas. Ao mesmo tempo, o leitor acompanha a desmontagem da única estrofe, dos versos e das palavras - com efeitos na acumulação de sentidos e na indeterminação da voz poética - através dos recursos daproliferação de vozes (na segunda e na terceira pessoas, e no impessoal), do espaço em branco e do uso de apenas duas pontuações, a vírgula e os parênteses (estes, utilizados intensamente). Tais recursos e mais a estratégia do minimalismo, que recorta e distribui os versos entre duas e oito sílabas, entrecortam o ritmo do poema:

peça a ela que se desnude
começa pelos cílios
segue-se ao arame dosutensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante ondevaza
a luz e suas arestas
(DANIEL & BARBOSA 2002: 100)

Ao recorrerem à fragmentação, os poetas o fazem para assimilar e modificar legados do passado, além de procurarem responder a desafios de seu tempo. Dialogam com a herança da fragmentação modernista que, por sua vez, reelaborava os primórdios das experiências fragmentárias na obra e na teoria românticas. Hugo Friedrich, que inclui afragmentação entre as características negativas usadas não para depreciar mas para definir a lírica moderna, capta nessa poesia uma finalidade obscura, a de indicar “uma transcendência em dissonâncias e em fragmentos, cuja harmonia e totalidade ninguém mais pode perceber” (1991: 34). Se mesmo o desejo romântico pela unidade permaneceu sempre fragmentário, como mostra o jovem George Lukács em seuensaio sobre Novalis2, nos poetas modernistas o sentimento da dispersão se eleva a horizonte existencial, qual em "Vontade de dormir", de Mário de Sá-Carneiro:

Fios de outro puxam por mim
A soerguer-me na poeira
– Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...
...........................................
– Ai que saudades da morte....................................................
Quero dormir...ancorar...
...........................................
Arranquem-me esta grandeza!
Pra que me sonha a beleza,
Se a não posso transmigrar?...
(1995: 90)

Os autores modernos, conforme demonstra Raymond Williams através de Eliot, James Joyce e outros, tornaram-se responsáveis pela criação de uma imagística típica da consciência urbana, com repercussões decisivas sobrea própria escrita das narrativas e poemas (1990). Para Williams, Joyce é a realização mais acabada dos novos modos de percepção e identidade, alterados no espaço das cidades modernas. A originalidade de Joyce, seu modo de ver “fragmentado, promíscuo, isolado” concretiza-se em uma “nova estrutura da linguagem” (1990: 330).

A exposição sobre as relações entre modernismo e fragmentação, precisa...
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