Pedagogia

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  • Publicado : 9 de maio de 2011
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Essa afirmacao preconceituosa e prima-irma da ideia que acabamos de derrubar, a de que “brasileiro nao sabe portugues”. Como o nosso ensino da lingua sempre se baseou na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemos na escola em boa parte nao correspondem a lingua que realmente falamos e escrevemos no Brasil. Por isso achamos que “portugues e uma lingua dificil”: porque temos de decorarconceitos e fixar regras que nao significam nada para nos. No dia em que nosso ensino de portugues se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da lingua portuguesa do Brasil e bem provavel que ninguem mais continue a repetir essa bobagem.

Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua. Saber uma língua, no sentido científico do verbo saber, significa conhecer intuitivamente e empregar comnaturalidade as regras básicas de funcionamento dela.

Está provado e comprovado que uma criança entre os 3 e 4 anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua língua! O que ela não conhece são sutilezas, sofisticações e irregularidades no uso dessas regras, coisas que só a leitura e o estudo podem lhe dar. Mas nenhuma criança brasileira dessa idade vai dizer, por exemplo:“Uma meninos chegou aqui amanhã”. Um estrangeiro, porém, que esteja começando a aprender português, poderá se confundir e falar assim. Por isso aquela piadinha que muita gente solta quando vê uma criancinha estrangeira falando — “Tão pequeno e já fala tão bem inglês [ou outra língua]” — tem seu fundo de verdade: muito pouca gente conseguirá falar uma língua estrangeira com tanta desenvoltura quanto umacriança de cinco anos que tem nela sua língua materna! Por quê? Porque toda e qualquer língua é
“fácil” para quem nasceu e cresceu rodeado por ela! Se existisse língua “difícil”, ninguém no mundo falaria húngaro, chinês ou guarani, e no entanto essas línguas são faladas por milhões de pessoas, inclusive criancinhas analfabetas!

Se tanta gente continua a repetir que “português é difícil” éporque o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o uso brasileiro do português. Um caso típico é o da regência verbal. O professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase: “Assisti ao filme”. Quando esse mesmo aluno puser o pé fora da sala de aula, ele vai dizer ao
colega: “Ainda não assisti o filme do Zorro!” Porque a gramática brasileira não sente a necessidadedaquela preposição a, que era exigida na norma clássica literária, cem anos atrás, e que ainda está em vigor no português falado em Portugal, a dez mil quilômetros daqui! É um esforço árduo e
inútil, um verdadeiro trabalho de Sísifo, tentar impor uma regra que não encontra justificativa na gramática intuitiva do falante.

A prova mais visível disso é que aquelas mesmas pessoas que, por causa dapressão policialesca da escola e da gramática tradicional, usam a preposição a depois do verbo assistir, também dizem que “o jogo foi assistido por vinte mil pessoas”. Ora, se o verbo assistir pede uma preposição é porque ele não é transitivo direto, e só os verbos transitivos
diretos podem, segundo as gramáticas, assumir a voz passiva. Desse modo, quem diz “assisti ao jogo” não poderia,teoricamente, dizer “o jogo foi assistido”. Só que essa esquizofrenia gramatical acontece o tempo todo. Basta ler jornais como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, cujos manuais de redação decretam que o verbo assistir tem que vir obrigatoriamente seguido da preposição a. Na voz ativa, a preposição aparece: “Vinte mil pagantes assistiram ao jogo”, porque assim manda o manual da redação. Mas na horade usar a voz passiva, a gramática intuitiva brasileira do redator se manifesta, e a gente encontra milhares de exemplos do tipo “o jogo foi assistido por vinte mil pagantes”. Essas pessoas, então, ficam em cima do muro: “acertam” na voz ativa, por causa do patrulhamento lingüístico, mas “erram” na passiva, porque se deixam levar pelo uso normal do português brasileiro. Tudo isso por causa da...
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