Os erros da liberdade

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  • Publicado : 26 de fevereiro de 2012
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A liberdade ou a morte? Dilema enganoso, responde Grimal. A verdadeira liberdade só se realiza plenamente na morte. De onde vem então o mito da liberdade, portador de esperanças que acarretam massacres? Aqui são narrados seu nascimento e a emergência de sua definição até sua acepção metafísica, passando por seu ambíguo avatar político.

Os erros da liberdade - Pierre Grimal

Dois problemas daliberdade
Thomas Nagel
Universidade de Nova Iorque
Algo de peculiar acontece quando olhamos a acção de um ponto de vista objectivo ou exterior. Alguns dos seus aspectos mais importantes parecem desaparecer sob o olhar objectivo. As acções parecem já não ter como fontes agentes individuais, mas tornar-se, em vez disso, componentes do fluxo de acontecimentos no mundo do qual o agente é parte. Amaneira mais fácil de produzir este efeito é pensar na possibilidade de todas as acções serem causalmente determinadas, mas essa não é a única maneira. A fonte essencial do problema é uma concepção das pessoas e das suas acções como parte da ordem da natureza, causalmente determinada ou não. Esta concepção, se insistirmos, conduz ao sentimento de que não somos de maneira alguma agentes, de queestamos desamparados e não somos responsáveis pelo que fazemos. A visão interior do agente rebela-se contra este juízo. A questão é saber se ela pode manter-se contra os efeitos debilitantes de uma visão naturalista.
Na realidade, o ponto de vista objectivo origina três problemas acerca da acção. Desses, ocupar-me-ei apenas de dois. Ambos têm a ver com a liberdade. O primeiro problema, que melimitarei a descrever e deixar de lado, é o problema metafísico geral da natureza do agir. Esse pertence à filosofia da mente.
A questão "O que é a acção?" é muito mais vasta do que a questão do livre-arbítrio, porque se aplica até à actividade das aranhas e aos movimentos periféricos, inconscientes ou não intencionais dos seres humanos no decurso de actividade mais deliberada. Aplica-se a qualquermovimento não involuntário. A questão liga-se ao nosso tema porque a minha realização de um acto — ou a realização de um acto por qualquer pessoa — parece desaparecer quando pensamos no mundo objectivamente. Parece não haver lugar para o agir num mundo de impulsos neurais, reacções químicas e movimento de ossos e músculos. Mesmo se adicionarmos sensações, percepções e sentimentos não obteremos acção,ou realização — há apenas o que acontece.
Na linha do que foi anteriormente dito acerca da filosofia da mente, penso que a única solução é olhar a acção como uma categoria mental básica ou, mais exactamente, psicofísica — nem redutível ao físico, nem a outros termos mentais. Não consigo melhorar a defesa exaustiva que Brian O'Shaughnessy faz desta posição. A acção tem o seu próprio aspectointerno irredutível, tal como outros fenómenos psicológicos — há uma assimetria mental característica entre a consciência das nossas próprias acções e a consciência das acções de outros —, mas a acção não é nada mais do que isso, isoladamente ou em combinação com um movimento físico: nem uma sensação, nem um sentimento, nem uma crença, nem uma intenção ou desejo. Se restringirmos a nossa paleta a essascoisas acrescidas de acontecimentos físicos, o agir será omitido da nossa imagem do mundo.
Mas, mesmo que a acrescentássemos como um item irredutível, tornando os sujeitos de experiência também (e como O'Shaughnessy inevitavelmente argumenta) sujeitos de acção, o problema da acção livre mantém-se. Podemos agir sem ser livres, e podemos duvidar da liberdade dos outros sem duvidar de que agem. Oque mina a compreensão da liberdade não mina automaticamente a acção1. Deixarei de lado o problema geral do agir, no que se segue, e presumirei simplesmente que tal coisa existe.
O que discutirei são dois aspectos do problema do livre-arbítrio, correspondentes aos dois modos segundo os quais a objectividade ameaça as suposições comuns acerca da liberdade humana. Chamo a um o problema da...
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