Nzinga mbandi dona ana de souza

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Nzinga Mbandi Dona Ana de Sousa:
princesa do Ndongo, rainha de Matamba



Mariana Bracks Fonseca.



O título deste artigo pretende evidenciar a sobreposição de nomes, rituais, ideias que estavam presentes no contato dos Mbundo com os portugueses no século XVII. O que significou a cerimônia de batismo da embaixadora do soberano do Ndongo?Como e porque ela aceitou o cristianismo? Deveríamos chamá-la de princesa?
O termo princesa foi usado sem hesitações por Cavazzi[1], capuchinho que acompanhou os últimos anos de Nzinga, e foi muitas vezes repetido pelo historiador Glasgow[2]. Miller, que apesar de defender a falta de legitimidade de Nzinga enquanto soberana do Ndongo, cai na contradição de iniciar seu artigo[3] chamando-ade “queen”, apresentando-a como monarca Mbundo no século XVII.
Nzinga Mbandi nasceu em 1582 e foi apresentada pela maioria das fontes[4] como filha de Nzinga Mbandi Ngola, tido pelas tradições como o oitavo Ngola, título do soberano do reino do Ndongo. Era a irmã mais velha de Ngola Mbandi, que assumiu aposição Ngola em 1617, e teria outras duas irmãs mais novas, Kifunje e Mocambo. Mas aspesquisas de Miller[5] relativizaram o termo “irmão”, que não significa necessariamente parentesco biológico e poderia ter sido usado no século XVII para designar títulos de equivalência política, assim como os termos “pai” e “filho”, que representariam a hierarquia entre títulos. Diante destes estudos, ficou mais difícil tecer afirmações sobre a família de Nzinga Mbandi e construir a genealogiados reinos centro-africanos no século XVII.
Miller defende a ilegitimidade de Nzinga e diz que ela era apenas meia-irmã de Ngola Mbandi, filha do antigo soberano com uma escrava. Esta informação aparece apenas nos escritos de Curvelier[6], tido por Heintze como um trabalho pouco fiável e romanceado, que não consultou fontes históricas. Sem questionar a informação, Miller coloca a escravidãoda mãe de Nzinga como um fato e usou isto para defender sua teoria da ilegitimidade de Nzinga, já que os Mbundo não aceitavam que filhos de escrava ocupassem títulos importantes.
Considero esta afirmação improcedente, pois a acusação de “ser filho de uma escrava” foi usada por Nzinga contra seu rival Ngola Are no final da década de 1620. Ngola Are aparece nas fontes como “filha de uma peçade D. Bárbara” [7], a irmã mais nova de Nzinga, e isto o impediria de assumir o título Ngola. Heintze[8] observa que se Nzinga tivesse realmente esta filiação inglória, Fernão de Sousa, o arquiteto do golpe político contra Nzinga em 1626, teria sido informado por Bento Rebelo Vilasboas, residente na corte no Ndongo, e teria usado isto exaustivamente para condená-la.
Cavazzi fala que a mãe deNzinga era uma concubina do Ngola, o que nos leva a refletir sobre o significado que este termo tinha para o capuchinho italiano e como ele foi usado nos diversos processos de tradução que passou (Mbundo-italiano-português). O Ngola tinha inúmeras mulheres e a mãe de Nzinga provavelmente não era a esposa principal e para o Ngola todos eram tidos como seus ijiku[9], palavra que foi traduzida como“escravo”.


A guerra contra o Ndongo

Em 1617, morreu Nzinga Mbandi Ngola e seu filho Ngola Mbandi assumiu o poder. Aproveitando-se da transição, Luiz Mendes de Vasconcelos transferiu o presídio de Hango para Mbaka (Ambaca), nas terras do Ngola. Iniciou-se uma intensa guerra contra o Ndongo em que muitos súditos e membros da família real foram aprisionados pelos portugueses. Parte doreino do Ndongo foi ocupado pelo bando do Jaga Cassanje, que havia se aliado aos portugueses para possibilitar a invasão. Depois de fortalecido pelos portugueses, Cassanje se recusou a abandonar as terras ocupadas e a fornecer escravos baratos para os portugueses. Cassanje passou a ser um inimigo comum tanto do Ngola, que perdera seu território, tanto para os portugueses, que tinham o mercado de...
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