Mesa voadora

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  • Publicado : 2 de outubro de 2012
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LUÍS FERNANDO

ver!ssimo
A Mesa Voadora
Estamos no topo da cadeia alimentar dos bichos de sangue quente e somos da categoria dos predadores: comemos de tudo, da baleia ao escargot. Assim o escritor analisa a espécie, nos ajuda a compreender fomes diversas - e alivia culpas, se elas ainda existirem. Sim, Veríssimo é especialista no assunto. Na cozinha só entra para abrir geladeira, mas sabecomer. Delicia-se com bravos minestrones, carnes malpassadas, tortas sofisticadas ou pastéis de beira de estrada. Sorte a nossa, porque depois de comer tanto e tão bem ele ainda escreve, deliciosamente, sobre experiências viscerais. Ou alguém já descreveu melhor do que o Veríssimo aquele encantamento que sentimos, ah sim, quando a gema se desprende da clara e, viscosa, quente, se desmancha sobre osgrãos de arroz? Seus textos também podem nos embriagar, de tanto rir, se o assunto for os tintos mais apropriados para aquele jantar de sexta à noite, ou a ressaca do dia seguinte Veríssimo aposta que na sua adolescência as bebedeiras tinham grandeza, e na luta desigual entre o cuba-libre e seu instinto de preservação, o primeiro ganhava sempre. Confira. As memórias gustativas deste escritor sóficam mais saborosas com o tempo. Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos - seja o fígado ou a coragem do inimigo, quem sabe a carne da pessoa amada. Tudo no sentido figurado, claro. Afinal civilização é isso: a domesticação dos nossos apetites. Seja no ruidoso churrasco de domingo, no jantarzinho só-nós-dois-e-mais-ninguém, ou na defesa das nossas preferências num disputado buffet, estemartírio da vida social moderna. Você sabe do que Veríssimo está falando - é preciso resistir à tentação de botar os camarões no bolso, mas decida-se por uma eficiente estratégia de ataque. Impossível o desprendimento, quando o assunto é comida: nosso passado de canibais nos persegue.

Sumário
Nota do autor O buffet União, gente Com champignon O come e não engorda Cumprimentos ao chef Àssopas La petite O bar perfeito Vinhos De ressaca Comida Fondue com estrelas O manjar A maçã Chineses Salsinha O Fortuna Voracidade Ovo Costela marinada Abandonar-se Memórias paladares Meninos Duas histórias sutis Pastel de beira de estrada Água mineral O Troisgros Botecos A decadência do Ocidente O inventor de sabores Regras A mesa Bocuse O bom A gorjeta é livre No Cios Normand Pratos variados RóssiniDefinições Terrinas Especiarias Desolados Martírio Lugarzinho Terra de monstros Receitas Fomes

Nota do autor
Ficará claro para O leitor que as crónicas reunidas neste livro se referem a diversas épocas e que não houve a preocupação de manter uma sequência cronológica. Pelas pequenas confusões que isto possa causar — repetições, contradições e outras distrações — o autor pede desculpas. Pelasgrandes confusões, ele não se responsabiliza.

O buffet
Um dos martírios da vida social moderna é o buffet. Ele nasceu com boas intenções, como resposta à necessidade de alimentar da maneira mais prática o maior número de pessoas com o máximo de elegância possível. Isto é, sem que a festa pareça um rififi no refeitório. E difícil servir 300 ou 400 pessoas nas suas mesas e ao mesmo tempo, àfrancesa, a não ser que haja quase tantos garçons quanto convidados. A solução, já que a comida não pode ir às pessoas, é as pessoas irem à comida. Outra vantagem do buffet é que, com todos os pratos concentrados sobre uma única e bem ornamentada mesa, ele dá a correta impressão de abundância. Que é, afinal, o que nos leva a festas. Todo buffet é uma alegoria à fartura. Há cascatas de camarões,leitões esquartejados e remontados sobre pedestais de farofa, everestes de maionese, continentes de saladas e de frios. Uma vez, juro, vi um faisão empalhado no centro da mesa, na pose de quem se preparava para decolar deste insensato mundo. Só o que o mantinha na terra era a sua própria carne, em fatias, a seus pés. Diante de um buffet você deve se debater entre dois sentimentos: a vontade de comer...
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