Memorial

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  • Publicado : 9 de dezembro de 2010
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Contextualização da época do romance
A história de Memorial do Convento começa por volta de 1711, cerca de três anos depois do casamento de D. João V com D. Maria ana Josefa de Áustria, e termina vinte e oito anos depois (1739), aquando da realização do auto-de-fé que determina a morte de António José da Silva e de Baltasar Mateus Sete-Sóis.
É na primeira metade do século XVIII que a acçãorelatada se desenrola, período em que D. João V dirigia os destinos da nação.
Algumas características deste reinado devem ser enumeradas para que melhor se compreendam algumas manifestações políticas, económicas e culturais  referenciadas na obra.
Assim, o reinado de D. João V constitui uma continuidade da política absolutista que era alimentada pelas enormes remessas de ouro do Brasil, local quedepositava toda a atenção do monarca. É neste reinado que as condições da economia portuguesa melhoram, embora alguns problemas políticos ocorram na vizinha Espanha, concretamente com a Guerra da Sucessão.
D. João V tentou manter-se afastado das manobras políticas, adoptando uma postura neutral face aos jogos de poder que se faziam sentir na Europa.
Vive-se em Portugal um clima de Iluminismo,movimento filosófico que visou difundir o racionalismo cartesiano e o experimentalismo de Bacon, ilustrado no romance pela construção da passarola.
Mas, para travar estas novas ideologias, a Inquisição reforça, nesta época, o seu poder que estende a todos os sectores da sociedade. Ao Tribunal do Santo Ofício cabia o julgamento de vários tipos de crime, e os autos-de-fé constituíam a melhor forma deexibir o poder inquisitorial.
Vários estrangeirados foram contratados para actuarem nos vários campos artísticos, destacando-se Nicolau Nasoni na arquitectura e Domenico Scarlatti na música. A nível literário, o destaque vai para o judeu António José da Silva e para o estilo oratório evidenciado no vasto sermonário português, onde a nossa língua atinge um elevado grau de apuramento.
Naglobalidade, quando os elementos históricos são inseridos na diegese, o autor do Memorial respeita-os. Daí que os aspectos ligados à construção do Convento de Mafra correspondam à realidade. Mas há outros factos históricos aproveitados na obra cujo tratamento sofre alterações ou, então, não existe total correspondência entre estes e a forma como surgem na intriga. É o caso de Bartolomeu de Gusmão (que,inicialmente, aparece na obra como Bartolomeu Lourenço), ou as notícias sobre as suas experiências voadoras (que na História são nebulosas, mas que na obra são amplamente desenvolvidas e destacadas). A sua fuga para Espanha e a sua morte têm também alguns ingredientes ficcionais.
O relato das práticas da Inquisição, dos acontecimentos populares religiosos (as procissões, por exemplo) e o casamentodos príncipes reais servem para recriar o ambiente de uma época, sobre a qual um narrador, com características próximas do autor, tece inúmeros comentários críticos.
A par destas personagens mais ou menos históricas desfilam outras ficcionais que veiculam a intenção do autor de libertar da lei do esquecimento aqueles que quase sempre são esquecidos, destacando, para isso, alguns nomes querepresentam metonimicamente os cerca de 20 000 trabalhadores utilizados na construção do convento.
Classificação tipológica de Memorial do Convento
Relativamente ao romance em análise, o título (Memorial) sugere factos de que reza a História. Todavia, existem algumas dúvidas quanto à sua classificação. Atendendo à intemporalidade do narrador, que intervém frequentemente na história narrada, pareceimpossível classificar esta obra como romance histórico. Apesar disto, há na obra a reconstituição de um passado histórico, mas cheio de intromissões e considerações presentificadas. Além disso, a ficção marca aqui a sua presença, bem como a supremacia dada a aspectos que a história não realçou e tudo isto constitui factor de afastamento ao romance histórico.
No fundo, Saramago conta o passado com os...
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