Medo

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Castelhano, L.M. “O medo do desemprego e a(s) nova(s) organizações de trabalho”

O MEDO DO DESEMPREGO E A(S) NOVA(S) ORGANIZAÇÕES DE TRABALHO
Laura Marques Castelhano Pontifícia Universidade Católica de São Paulo RESUMO: O objetivo deste artigo é discutir como o aumento do desemprego altera as relações entre o sujeito e a organização, intensificando o medo no ambiente de trabalho. Demonstra-secomo o medo de perder o emprego, torna o trabalhador mais vulnerável e sujeito a formas de dominação e controle, e produz efeitos como o aumento do sofrimento, a neutralização da mobilização coletiva e o individualismo. PALAVRAS-CHAVE: desemprego, organização, medo, dominação, sofrimento. THE FEAR OF THE UNEMPLOYMENT AND THE NEW CORPORATION ABSTRACT: The objective of this article is to discusshow the unemployment increase alters the relationship between the subject and the organization, intensifying the fear factor in the work environment. The study demonstrates how the fear of losing the job leads the worker to become more vulnerable and susceptible to forms of domination and control. This fear also produces effects such as the increase of suffering, the neutralization of the collectivemobilization and the individualism. KEY-WORDS:: unemployment, organization, fear, domination, suffering “o medo de perder o emprego aumenta a dependência à empresa, intregando-se (o sujeito) à produção e silenciando a própria dor.” (Barreto, 2000, p. 144).

As organizações, que são os alicerces da produtividade do capital, estruturam-se de forma a conduzir o processo de acumulação, incentivandomudanças que propiciem aumento de produtividade. Nas organizações a racionalização das estruturas e das relações pessoais se dissemina afetando os modos de vida e de trabalho, desenvolvendo uma estrutura mais enxuta, e muito mais flexível em suas formas contratuais, do que as antigas estruturas agrícolas e/ou as industriais dos primeiros períodos da industrialização. Deflagram-se váriastransformações no processo produtivo, alterando-se aos modos de gestão e as relações dentro das organizações, afetando, segundo Guimarães (2002), tanto os ‘sobreviventes’ deste processo, quanto os que dele parecem estar sendo ‘excluídos’. “A situação se modificou por completo a partir do inicio dos anos 1990, quando a atividade industrial foi profundamente golpeada pela abertura do mercado: o desempregodisparou, aumentou enormemente a informalidade, o desassalariamento avançou.” (LEITE, 2003, p.105). Mas, se por um lado temos mudanças nas estruturas organizacionais, temos por outro, novas 14

exigências feitas ao sujeito da organização, que será afetado em toda intensidade. O sujeito reproduzirá o novo discurso da organização: deverá ter responsabilidade, autonomia e senso de cooperação. Noentanto, isto poderá explodir em conflito, já que a realidade, desejo e intenção do sujeito são diferentes dos desejos, realidades, e intenções da empresa. Por isso Pagès (1987) afirmou que a organização funciona como um sistema de mediação das contradições, que tem de um lado os trabalhadores e do outro a empresa. O sistema de mediação se coloca como a aliança entre as restrições da empresa e osprivilégios aos indivíduos. Para o autor, a organização permite ao individuo defender-se da angústia, propondo-lhe um sistema de defesa sólido, organizado e legitimado pela sociedade. Em contrapartida, exige do individuo sua colaboração com a manutenção do poder, tentando evitar ao sujeito afrontar suas contradições íntimas. Essa ação mediadora encobre e oculta processos contraditórios, tentandoantecipar e transformar as contradições, antes que elas se transformem em conflitos coletivos. Tudo se passa como se as contradições fossem constantemente ‘retomadas’ no momento em que elas poderiam desembocar num conflito aberto com a empresa.

Psicologia & Sociedade; 17 (1): 17-28; jan/abr.2005

Na mesma linha de raciocínio, Schirato (2000), em sua pesquisa com trabalhadores demitidos,...
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