Madame bovary

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MADAME BOVARY GUSTAVE FLAUBERT COLECÇÃO NOVIS BIBLIOTECA VISÃO - 28 Digitalização e Arranjo Agostinho Costa

O escritor francês Gustave Flaubert publicou em 1857, depois de cinco anos de trabalho, a obra-prima intitulada Madame Bovary. Através da descrição das frustrações e aventuras de uma jovem mulher casada com um decadente médico de província, o autor aborda de forma distanciada e, por vezes,desdenhosa, temas como o amor, a desavença conjugal, a negligência médica, a sexualidade e o suicídio. A escrita rigorosa, o realismo e a objectividade, mas também o sentido do ridículo, caracterizam esta narrativa que marcou a história da literatura até aos nossos dias.

Título Original: Madamme Bovary Autor: Gustave Flaubert Tradução de Fernanda Ferreira Graça Edição cedida por PublicaçõesEuropa-América para BIBLIOTEX, S. L. Para esta edição ABRIL/CONTROLJORNAL,

impressão: Agosto de 2000

A MARIE-ANTOINE-JULES SENARD MEMBRO DA ORDEM DOS ADVOGADOS DE PARIS EX-PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA NACIONAL E ANTIGO MINISTRO DO INTERIOR Querido e ilustre amigo: Permita que escreva o seu nome no cabeçalho deste livro e a abrir a própria dedicatória, pois é sobretudo a si que devo a sua publicação. Aoser objecto do seu magnífico discurso de defesa, a obra adquiriu, aos meus olhos, uma autoridade imprevista. Aceite, pois, aqui, a homenagem da minha gratidão, a qual, por maior que possa ser, nunca estará à altura da sua eloquência e dedicação. Gustave Flaubert Paris, 12 de Abril de 1857 Primeira Parte I Estávamos na sala de estudo quando o director entrou, seguido de um caloiro sem uniforme ede um contínuo que transportava uma grande carteira. Os que estavam a dormir acordaram e todos se puseram de pé como se tivessem sido surpreendidos a trabalhar. O director fez sinal para que nos sentássemos novamente; depois, voltando-se para o encarregado de vigiar os estudos: - Senhor Roger - disse-lhe a meia voz -, aqui tem um aluno que lhe recomendo; entra para a 5ª classe. Se for aplicado etiver bom comportamento, passará para os mais crescidos, de acordo com a sua idade. O caloiro, que ficara no canto atrás da porta, de tal modo que mal o conseguíamos ver, era um rapaz do campo, com cerca de quinze anos e mais alto do que qualquer de nós. Tinha o cabelo cortado a direito sobre a testa, como o dos que cantavam no coro da igreja, e mostrava um ar sisudo e muito acanhado. Embora nãofosse largo de ombros, o fato de tecido

verde e botões pretos devia ficar-Lhe apertado debaixo dos braços e deixava ver, pelas aberturas das mangas, uns pulsos vermelhos habituados a andar despidos. As pernas, com meias azuis, saíam-lhe de umas calças amareladas, repuxadas pelos suspensórios. Calçava sapatos grossos, cardados e mal engraxados. Começámos a recitar as lições. Ele escutou com toda aatenção, como se estivesse a ouvir uma prédica, não ousando sequer cruzar as pernas nem apoiar-se nos cotovelos, e, às duas horas, quando tocou o sino, o vigilante teve de Lhe chamar a atenção para que se pusesse connosco na forma. Tínhamos o costume de, ao entrar na aula, atirar os bonés para o chão, a fim de ficarmos com as mãos mais livres; havia que lançá-los logo do limiar da porta paradebaixo do banco, de maneira que batessem na parede e levantassem bastante pó; era essa a praxe. Mas, fosse porque não tivesse notado a manobra ou porque não se atrevesse a tentá-la, já a oração terminara e ainda o caloiro conservava o boné em cima dos joelhos. 10 Era um daqueles barretes compostos por elementos de boina de feltro, boné turco, chapéu redondo, gorro de peles e carapuça de algodão; umacoisa medíocre, enfim, daquelas cuja fealdade muda tem profundidades de expressão semelhantes às do rosto de um imbecil. Ovóide e armado com barbas de baleia, o boné começava por três chouriços circulares; depois alternavam-se, separados por uma tira vermelha, losangos de veludo e pele de coelho; vinha depois uma espécie de saco que terminava num polígono cartonado, coberto por um complicado...
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